Respeito

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No artigo anterior falei um pouco sobre a humildade e como o grande guerreiro Crazy Horse foi um exemplo dessa virtude.
Dando continuidade aos artigos sobre as virtudes buscadas pelo povo Lakota, hoje vou falar um pouco sobre o ‘Respeito’.
Para ilustrar esse tema, vou contar uma das centenas de histórias que os mais velhos costumavam contar para seus filhos e netos, com o intuito de faze-los entender mais facilmente, a importância de se ouvir, entender e colocar em prática os ensinamentos que os ajudariam a viver com dignidade e harmonia.
Felizmente ainda existem descendentes desse povo que valorizam esses ensinamentos e que se dispõe a nos transmitir bondosamente.
Vou contar a história da “Mulher Cervo”.
Havia um jovem guerreiro que se tornara um exímio caçador. Sempre que saia para uma caçada, toda a aldeia sabia que ele demoraria alguns dias para voltar, mas certamente chegaria com provisões para todos.
Vamos chama-lo de ‘Koskalaka’ (que significa homem jovem), já que não sabemos seu nome.
Koskalaka vivia com sua avó para ajuda-la e fazer-lhe companhia, em vista de que a mesma era viúva.
Em gratidão, ela sempre lhe contava histórias fascinantes que Koskalaka adorava ouvir.
Entre elas havia essa sobre a Mulher Cervo.
A Mulher Cervo, segundo a história, era de uma beleza estonteante! Tão linda que qualquer um que dela se aproximasse, ficaria perdidamente apaixonado.
Ela vivia em uma tenda pequena mas aconchegante, e um fogo convidativo sempre brilhava em frente da mesma. Mas ninguém conseguia encontra-la por mais que a procurassem. Ela só era avistada quando um caçador, longe de casa, estivesse sozinho, cansado e com fome.
Ela o atraía para sua tenda, oferecendo-lhe alimento, calor, carinho e prazeres, até que o mesmo caísse no sono.
Quando o caçador acordava na manhã seguinte, descobria que a linda mulher havia desaparecido e havia levado com ela seu sossego, seu juízo.
Uma vítima dessa armadilha, como que num encantamento macabro, nunca mais teria paz e passaria o resto da vida procurando, em vão, reencontrar a Mulher Cervo.
A avó de Koskalaka o advertiu sobre o perigo de encontra-la na mata, aceitar seu convite e perder a cabeça para sempre.
“Alguns homens são feridos em batalhas ou enquanto estão caçando. Esses ferimentos podem ser curados, mas com o espírito é diferente. Se o seu espírito for ferido, ele talvez nunca mais possa ser curado”, dizia ela.
No outono seguinte, Koskalaka fez os preparativos para sua caçada. Precisava trazer provisões para a aldeia. Ele partiu para sua jornada com mais três outros guerreiros, mas como o verão anterior havia sido muito seco, os animais se distanciaram das regiões que costumavam habitar e os caçadores precisaram viajar muitos dias até conseguirem encontra-los.
Numa determinada tardinha, Koskalaka se afastou de seus companheiros seguindo a trilha deixada por um alce quando avistou uma tenda (tipi) iluminada por uma fogueira e percebeu que o aroma que saía da tenda era particularmente delicioso.
Curioso, mas com muita cautela, ele resolveu chegar mais perto e avistou uma linda mulher.
Ela percebeu sua presença e acenou para ele vindo em sua direção.
“Você deve estar muito cansado” ela disse. “Venha comigo. Eu tenho um bom fogo e um bom lugar para você descansar”.
Koskalaka nunca havia visto uma mulher tão bonita em toda sua vida. Sentiu-se extremamente tentado e por um momento, deu sinal de que a acompanharia. O desejo de segui-la era incontrolável!
Mas Koskalaka sabia exatamente quem ela era!
A Mulher Cervo estava ali, bem na sua frente!
Seus joelhos tremeram e um misto de desejo e medo pareciam se apoderar de seu coração.
Percebendo o receio do caçador, a linda mulher acrescentou, insinuante: “Você é forte e bonito. Eu estava esperando encontrar alguém exatamente como você!”
Nesse instante, quase cedendo aos encantos da misteriosa mulher, Koskalaka ouviu a voz de sua avó dizendo: “Poderá ser a mais difícil decisão da sua vida, mas você precisa fugir dela!”
Imediatamente Koskalaka juntou toda sua força de vontade e disse “Não. Eu não vou com você. Eu sei exatamente quem você é!”
O lindo rosto da Mulher Cervo se contorceu ao perceber que fora rejeitada e uma ventania inesperada, levantou as folhas do chão e sacudiu as árvores.
À frente de Koskalaka agora, havia um cervo furioso!
A tenda convidativa havia desaparecido.
O cervo partiu para o ataque, mas Koskalaka sacou seu arco e suas flechas revidando, o que fez com que o cervo fugisse, desaparecendo na mata.
O resto da caçada foi excelente e Koskalaka voltou para sua aldeia cheio de provisões. Com o tempo tornou-se um líder respeitado por sua sabedoria, calma e decisões acertadas.
Foi o respeito aos ensinamentos de sua avó que salvaram sua vida.
Talvez a Mulher Cervo não apareça aos viajantes solitários atualmente. Talvez ela tenha mudado sua tática. Os tempos são outros e as armadilhas também.
O respeito, porém, será sempre atual!
Não existe sociedade organizada sem que haja respeito.
Não me refiro aqui apenas ao respeito pelos mais velhos. Não existe questionamento sobre isso.
Mas é preciso ampliar gigantescamente essa noção de respeito. Precisamos começar respeitando a nós mesmos! Sermos íntegros, verdadeiros e conhecermos nossos limites.
Em seguida precisa haver o respeito por nossos semelhantes. Respeitar crenças, raças, costumes, enfim, todas as diferenças.
É preciso respeitar todas as formas de vida! Os animais, a natureza, o planeta!
Nunca é tarde demais para se demonstrar respeito.
Isso poderá garantir que você também seja respeitado/a.

Em breve virei recontar mais histórias como essa.

(com gratidão à Joseph M. Marshall III)

 

Sabedoria Atemporal

humildade
Atualmente, um numero crescente de pessoas, busca conhecer melhor as cerimônias, os costumes e crenças dos povos nativos, por reconhecerem a verdade e simplicidade que existem nas mesmas.
Sim, esses povos ancestrais têm muito a nos oferecer e certamente podem nos ajudar a resgatar um estilo de vida mais pleno e significativo.
De grande importância também, será conhecermos melhor algumas virtudes que esses povos buscavam ter durante toda sua vida. Boa parte dessas virtudes parecem ter se perdido ao longo do tempo e seria maravilhoso se também pudéssemos resgata-las.
Inspirada pelos relatos e lendas contadas por um descendente dessa grande nação, um Sicangu/Oglala/Lakota, resolvi dedicar meus próximos posts para comentar algumas dessas virtudes e espero com isso, conseguir tocar seu coração como o meu foi tocado e incentiva-lo/a, a resgatar essa sabedoria ancestral

1 – HUMILDADE

Unsiiciyapi (ser humilde, ser modesto)

Talvez essa qualidade não esteja em voga atualmente. Vivemos num tempo em que as pessoas buscam enaltecer a si mesmas, vangloriar-se o tempo todo. Existe em nosso mundo, uma verdadeira guerra para ver quem sabe mais, quem faz mais, quem tem mais…
Para os tradicionais Lakota, porém, a humildade era uma virtude a ser perseguida durante toda a vida. Diziam que uma pessoa que anda ‘olhando para o chão’, enxerga melhor o caminho…
A humildade era uma qualidade fundamental para a escolha de seus líderes, por exemplo. Uma pessoa humilde que conseguisse se colocar no lugar dos outros, certamente tomaria boas decisões em benefício de toda a tribo.
Para esse povo, a humildade era uma virtude que realçava todas as demais.
Atos e feitos de bravura durante uma batalha, eram compartilhados em ocasiões especiais como na cerimônia “Waktoglaka” (contar suas vitórias). Essa era a única ocasião em que o guerreiro descrevia para os demais presentes, suas façanhas em um campo de batalha.
O objetivo dessas reuniões era compartilhar encorajamento, aprender novas táticas e incentivar uns aos outros. Não era esperado que o guerreiro que havia “contado suas vitórias”, ficasse se vangloriando e repetindo suas façanhas para toda a tribo.
Legends of the Americas by Sunti Pichetchaiyakul
Um dos maiores e mais prestigiados guerreiros Sioux/Oglala/Lakota, foi o lendário Crazy Horse.
Graças à sua incrível liderança, táticas de guerra e a total lealdade de seus guerreiros, conseguiu derrotar o temido general Custer em 1876.
Ele foi o responsável por deter, mesmo que temporariamente, o exército americano, no seu intento de capturar e confinar em uma reserva, todo o povo Lakota.
Teríamos muito a dizer sobre a vida de Crazy Horse, mas quero destacar aqui que, apesar de todo esse reconhecimento como grande guerreiro, ele é lembrado por seu povo, especialmente por ter sido uma pessoa humilde.
Se alguém tivesse o direito de participar da “Waktoglaka”, esse certamente seria Crazy Horse. Mas na realidade, ele nunca participou de uma dessas cerimônias.
Ele próprio, nunca contou suas conquistas. Outros guerreiros faziam isso por ele.
Crazy Horse sempre foi uma pessoa modesta, tímida e, apesar de ter conquistado o direito de usar muitos dos adornos concedidos aos grandes guerreiros, ele sempre se vestiu modestamente e quando usava um adorno, esse não passava de uma única pena.
Apesar de toda sua fama e do seu reconhecimento, ele andava pelo acampamento de cabeça baixa, em humildade, quando teria todo o direito de andar com arrogância.
Crzy Horse nunca se ofereceu para liderar seu povo. Ele simplesmente foi escolhido por todas as suas qualidades, por seu caráter.
Existem muitas lendas e histórias entre os nativos que ilustram a importância de sermos humildes. Certamente voltarei a falar desse assunto.
Se procurássemos a humildade como uma virtude a ser desenvolvida, talvez não tivéssemos em nosso mundo atual, tantos desentendimentos, tantas disputas, tantos conflitos.
Se lembrarmos que todos perdem com a arrogância, talvez possamos encontrar uma forma de tansformarmos nossas vidas, nossos relacionamentos e quem sabe, um dia, nosso mundo…
Ahow

Lourdes Azevedo

Profecia Nativo-Americana

redskin-arcoíris
Exitem muitas profecias entre os povos nativo-americanos.
Uma delas é recorrente em diversas nações: Cree, Zuni, Cherokee, Lakota Sioux, Navajo-Hopi, entre outas.

“Haverá um tempo, quando a Terra estiver devastada e poluída, quando as florestas estiverem sendo destruídas, quando os pássaros caírem do céu, quando as águas estiverem escurecidas, os peixes envenenados, quando as árvores não mais existirem, a humanidade como conhecemos deixará de existir.
Haverá um tempo em que os ‘Guardiões da Lenda’, histórias, rituais, mitos e todos os costumes tribais serão necessários para restaurar a nossa saúde.
Esses guardiões serão chamados de os ‘Guerreiros do Arco-Iris…
Haverá um tempo de despertar quando todos os povos de todas as tribos formariam um ‘Novo Mundo’ de justiça, paz, liberdade e reconhecimento do Grande Espírito”. (Cree)

“No tempo do ‘Sétimo Fogo’, um novo tipo de pessoas surgirão. Eles refarão suas pegadas para encontrar a sabedoria que foi deixada de lado ha muito tempo atrás.
Seus passos os levarão aos anciãos, a quem pedirão orientação para guia-los nessa nova jornada.
Se esse novo povo permanecer firme e forte em sua busca, o tambor sagrado será ouvido novamente. Existirá um despertar das pessoas, e o fogo sagrado será aceso novamente”. (Hopi)

“Quandoa Terra estiver morrendo, uma nova tribo de todas as cores e credos se levantará. A tribo será chamada de “Guerreiros do Arco-Íris” e colocará sua fé em ações e não em palavras.” (Hopi)

“Os Gerreiros do Arco-Íris espalharão estas mensagens e ensinarão todas as pessoas da Terra ou Elohi. Eles ensinarão a viver o ‘Caminho do Grande Espírito’.
As tarefas destes guerreiros são grandes e muitas.
Nós somos parte da Terra e a Terra é parte de nós”. (Chefe Seatle)

“Existirão terríveis montanhas de ignorância para conquistar e esses guerreiros encontrarão preconceitos e ódio. Eles precisarão ser dedicados, inabaláveis em sua força e fortes de coração. Eles encontrarão corações e mentes voluntárias que os seguirão nesta estrada de retorno à Mãe Terra para a beleza e plenitude mais uma vez.
Quando mostramos respeito por outros seres viventes, eles respondem com respeito a nós”. (Arapaho)

“Quando o Tempo do Búfalo estiver para chegar, a terceira geração de crianças de olhos brancos deixará crescer os cabelos e começará a falar de Amor que trará a cura para todos os filhos da Terra. Estas crianças buscarão novas maneiras de compreender a si próprias e aos outros. Usarão penas, colares de contas e pintarão os rostos.
Buscarão os Anciãos de nossa raça vermelha para beber da fonte de sua Sabedoria. Estas crianças de olhos brancos servirão como sinal de que os nossos ancestrais estão retornando em corpos brancos por fora, mas vermelhos por dentro. Elas aprenderão a caminhar em equilíbrio na superfície da Mãe Terra e saberão levar novas idéias aos chefes brancos. Estas crianças também terão que passar por provas, como acontecia quando eram Ancestrais Vermelhos.”
(Sociedade Búfalo da Dimensão dos Sonhos).

Todas as profecias mencionam que quando a vida em nosso planeta estivesse ameaçada, um numero de pessoas cada vez maior surgiria, guiados e determinados a preservar a sabedoria dos povos nativos.
Seriam pessoas de todas as raças, de todos os credos, cores e costumes, que se empenhariam em resgatar os valores, os costumes esquecidos no tempo, mas que seriam fundamentais para recuperar a vida, reencontrar a harmonia e a paz através da consciência de que todas as raças constituem na verdade, uma só raça”.
Mitakuye Oyassin (somos todos parentes)

O Arco-Íris encarna a ideia de unidade de todas as cores.
Os Guerreiros do Arco-Íris encarnam a ideia de unidade de todas as raças.

Com certeza estamos vendo um número de pessoas cada vez maior, de coração ávido por um mundo melhor, trabalhando, cada uma à sua maneira, na esperança de aos poucos restabelecermos o amor e a sabedoria que estavam sendo perdidos no tempo.
Continuaremos sempre nessa incansável busca para podermos, de alguma forma, participar da confirmação dessa profecia.
Mais importante do que tudo, na minha opinião, será resgatarmos as qualidades de caráter desses povos.
Em breve estaremos falando um pouco sobre alguns dos valores que norteiam a vida desses sábios ancestrais.
Lourdes Azevedo