Verdade

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                                                                   Iktomi (ilustração de Arthur Amiotte)
Verdade

Wowicake (O que é real, como o mundo é)

Perguntou-se uma vez a um índio idoso o que era a verdade e ele respondeu:
“Eu acho que não vivi o suficiente para saber o que é a verdade. Tudo o que sei é que sem ela, Iktomi seria a mais poderosa criatura da terra”.

Hoje para falarmos sobre a verdade, vamos recorrer a essa lendária criatura, Iktomi.
Todos os Lakota conhecem muito bem as peripécias de Iktomi e sua fama não é derivada de qualidades, ao contrário, Iktomi era famoso por ser extremamente enganador!
Preguiçoso por natureza, nunca se preocupou em garantir um lugar para morar, nunca quis aprender a caçar seu alimento e vivia de pregar peças em todos aqueles que cruzassem seu caminho para tirar algum tipo de vantagem.

Numa linda tarde de verão, Iktomi perambulava pelas planícies a procura de uma presa fácil. Seu estômago estava roncando de fome, mas ele não estava disposto a fazer nenhum grande esforço para conseguir alimento.
Havia muitos peixes no rio, mas isso significava que ele teria que agarrar alguns gafanhotos para servirem de iscas para os peixes e você sabe, gafanhotos são muito difíceis de pegar! Eles são muito rápidos! Por isso Iktomi decidiu que não comeria peixes naquele dia.
Sentou-se numa pequena colina para descansar um pouco quando, além do barulho de seu próprio estômago, ouviu o que pareciam risadas trazidas de longe pelo vento.
A última coisa que Iktomi queria ouvir naquele momento, eram risadas! A fome lhe havia provocado um terrível mau humor.
Mas ele acabou ficando curioso e resolveu verificar de onde vinha aquele som irritante.

Num lago próximo, Iktomi viu dezenas de patos nadando, dançando e grasnando alegremente. Para Iktomi aquela era uma visão hipnótica!!! Que refeição ele poderia conseguir!!!
Começou a pensar numa forma de capturar alguns daqueles patos suculentos sem grande esforço, claro.

Um plano mirabolante logo brotou em sua mente (ele era muito bom nisso). Recolheu alguns galhos e gravetos que encontrou caídos no chão, os amarrou bem como num fardo e com passos firmes começou a caminhar em direção ao lago.
Ele parecia estar muito ocupado, como numa missão importante e para disfarçar ainda mais, não dirigiu o olhar para os patos. Ao contrário, fingiu que eles não estavam lá.

Como imaginara, um dos patos o reconheceu e gritou para os demais:
“Olhem, é  Iktomi!” o que provocou um alarde! Todos começaram a partir em revoada, mas Iktomi fez de conta que aquilo não era com ele e continuou andando, arqueado com o fardo de galhos nas costas.

Aquilo era muito estranho! Aos poucos os patos começaram a voltar para a lagoa. Todos estavam espantados ao ver Iktomi aparentemente fazendo alguma coisa importante. Ficaram ainda mais intrigados quando viram que Iktomi estava passando por eles sem sequer lhes dirigir um olhar.

“Iktomi”, chamou um dos patos. Mas Iktomi continuou andando.
“Iktomi”! outro pato insistiu.

Iktomi então parou e olhou para o lago como se estivesse surpreso ao ver tantos patos juntos, nadando despreocupadamente.
“HAU” ele  disse. “Como estão vocês, amigos? Lindo dia esse, não é?”
“Estamos dançando e celebrando esse lindo dia”, respondeu o pato.
“Fico feliz por vocês”  Iktomi respondeu e se virou para continuar sua caminhada.
Os patos estavam muito intrigados com aquela atitude. Iktomi não estava agindo como Iktomi e eles precisavam saber o porque.
“Espere”, disseram eles. “O que está fazendo? Por que está carregando todos esses galhos?”
Iktomi fingiu estar com pressa e respondeu:
“Não são apenas galhos. São  canções! São canções muito sagradas!
Eu as estou levando para uma comemoração lá perto do rio.”
Pegou os galhos nas costas novamente e voltou a caminhar.
“Estão esperando por mim”, ele disse. “Tenho que chegar antes do por do sol.”
Os patos ficaram agitados com aquilo e disseram: “Espere, espere! Não vás embora ainda. Cante uma de suas canções para que possamos dançar.”
Iktomi hesitou, parecendo preocupado e respondeu: “Não. Eu não posso fazer isso. Tenho um longo caminho pela frente. Estão esperando por mim!  Além  disso, são canções sagradas e eu não acho que poderia cantar uma delas pra vocês. Eu nem os conheço!”
Os patos alvoroçados gritaram em uníssono: “Queremos ouvir uma canção! Apenas uma!” e rodearam Iktomi que só conseguia pensar em que maravilhosa refeição ele poderia ter, com aqueles patos gordinhos e suculentos.
“Está bem”, respondeu. “Vou cantar uma canção e depois seguirei meu caminho.”
Regozijando-se, os patos voltaram para a lagoa, comemorando em antecipação.
Iktomi então, apoiou todos os galhos no chão e cuidadosamente escolheu um deles. Era um galho forte e robusto que seria perfeito para aquilo que ele tinha em mente. Era a canção perfeita para aqueles patos.
“É  esse   aqui”, disse Iktomi e mais uma vez os patos grasnaram de alegria.
“Agora”, disse Iktomi, “desde que a canção é sagrada, existe uma coisa que vocês precisam fazer quando eu começar a cantar.”
“Diga-nos o que é. Diga-nos o que fazer” gritaram os patos.
“Quando eu começar  a cantar, vocês precisam fechar  bem os olhos. Essa canção é sagrada e muito poderosa. Não sei o que poderia acontecer se vocês abrissem os olhos durante ela. Eu vou fechar meus olhos também, porque sei quão poderosa essa canção é. É tão poderosa que me avisaram para nunca canta-la com os olhos abertos e que todos os que a ouvirem deverão estar com os olhos bem fechados também. Vocês entenderam?”
“Sim, sim, nós entendemos!”
Iktomi procurou um lugar confortável para sentar, limpou a garganta e disse: “Preciso avisa-los! Se vocês abrirem os olhos enquanto eu estiver cantando, seus olhos ficarão vermelhos para sempre. Portanto, não importa o que aconteça, não importa o que vocês ouçam, mantenham os olhos fechados!”
“Nós manteremos os olhos fechados” os patos responderam.
Então Iktomi  começou a cantar:
“Heya, hey, hey, hey, Heya há…”   Iktomi era um bom cantor.
Os patos ficaram encantados, fecharam os olhos e começaram a dançar, batendo as asas na água, fazendo muito barulho.

Então Iktomi cuidadosamente abriu um olho e viu que todos os patos estavam extasiados, dançando, batendo as asas e claro, com os olhos fechados.
Aos poucos, entrou na lagoa, se posicionou no meio dos patos e com um golpe certeiro, abateu o primeiro pato. Mas o barulho feito pelos demais era tão alto que ninguém percebeu o que acabara de acontecer.
Encorajado com o sucesso, Iktomi continuou cantando e abatendo mais alguns patos. Sete deles já boiavam mortos na lagoa quando um dos patos, desconfiado, abriu os olhos e viu Iktomi no meio deles com o grande galho na mão, pronto para continuar  golpeando os demais.
“Olhem!”, o pato gritou. “Fujam, fujam ou Iktomi vai matar a todos nós!
Os demais patos abriram os olhos e chocados com o que viram, bateram as asas em disparada.
Para muitos deles já era tarde demais…
A canção de Iktomi se transformou numa risada estridente enquanto ele recolhia o seu jantar.
Os patos remanescentes estava longe agora, mas seus olhos se tornaram vermelhos desde então.
Iktomi comeu até não poder mais…

Se um dia Iktomi lhe disser que tem lindas canções para você, não feche os olhos! Desconfie!
O grande problema é que não sabemos que forma Iktomi poderá assumir para tentar nos enganar….

 

 

 

 

Sacrifício – Icicupi

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Sacrifício
Icicupi (dar de si mesmo, oferecer-se)

Hoje vou falar sobre um assunto com o qual todos nós, de uma forma ou de outra, estamos familiarizados.
Durante nossa vida aqui na mãe Terra, nos deparamos com diversas situações que nos obrigam a fazer concessões, sacrifícios, a abrirmos mão de alguma coisa em prol de alguém, em prol de uma causa, uma circunstância.
Talvez trabalhemos num lugar que não nos deixa felizes, mas que garante o sustento de nossa família. Ou talvez precisemos deixar de realizar um desejo, como uma viagem de férias, em função de alguém que precisa dos nossos cuidados.
Pais em geral, deixam de lado suas vontades, para atender aos desejos ou necessidades de seus filhos.
Infinitas são as formas de sacrifício…
Você que está lendo esse texto agora, deve estar lembrando de algum sacrifício que precisou fazer ou ainda, que está fazendo, em função de uma pessoa, de uma situação, de uma contingência.
Existem duas formas de encararmos situações como essas.
Uma delas é revoltar-se, reclamar e maldizer o problema, o que só deixará o fardo ainda mais pesado, o desafio ainda maior.
Outra maneira é enfrentar o mesmo problema com serenidade, otimismo e positividade, o que transformará o fardo em algo bem mais leve e fácil de carregar.

A história que vou contar hoje, ilustra muito bem as consequências de um posicionamento equivocado face à adversidade.
Talvez você não saiba, mas para o povo Lakota, antigamente, não era absurdo acontecer de um homem ter duas esposas.
Não era uma situação comum, mas quando ocorria, o fato era aceito e respeitado pela comunidade.
Ter mais de uma esposa geralmente era consequência de uma situação específica. Por exemplo, um homem casado poderia tomar como esposa, a viúva de um grande amigo que se encontrava desamparada, com filhos para criar. Ou quando sua própria esposa expressava desejo que seu marido tomasse, além dela, uma de suas irmãs. Em situações como essas, era esperado que o homem assumisse a responsabilidade pelo sustento e cuidados de mais de uma companheira. Muitas vezes esse arranjo dava muito certo, mas muitas vezes acontecia exatamente o contrário…
Hà muito, muito tempo atrás, antes da chegada dos cavalos às planícies, num acampamento a leste das montanhas Black Hills, vivia uma mulher chamada Sina Luta ou Red Shawl (Xale Vermelho).
Ela havia se casado com um bom homem, bom provedor e de excelente reputação entre seu povo.
Apesar de estarem casados a bastante tempo, ainda não haviam conseguido ter um filho. Apenas depois de alguns anos Red Shawl conseguiu engravidar e deu à luz, um lindo menino.
A felicidade do casal era visível a todos.
Mas para surpresa e consternação de Red Shawl, seu marido lhe disse que traria uma segunda esposa para sua tenda.
Num acampamento próximo ao deles, um casal muito idoso criava uma de suas netas, desde que seus pais morreram numa nevasca.
O casal estava muito velho e queriam que a neta, Necklace, se casasse com um bom homem, antes de terminarem sua jornada aqui na terra.
Pediram a White Wing, marido de Red Shawl, que a tomasse em casamento e ele concordou.
Red Shawl, porém, nunca poderia imaginar que um dia precisaria compartilhar seu marido com outra mulher. Ela sabia que continuaria a ter uma posição privilegiada como primeira esposa, mas isso não conseguia conter seu ciúmes.
Quando White Wing partiu para buscar Necklace, Red Shawl juntou alguns poucos pertences, seu arco e flechas, alguns suprimentos, colocou seu filho em seu berço* e partiu da aldeia durante a noite, sem ser notada por ninguém.
Sua intenção era viajar para o leste até chegar a aldeia em que vivia uma de suas primas para ficar lá com ela. Red Shawl não estava disposta a dividir seu marido com outra mulher.
Muitos dias de caminhada aguardavam por Red Shawl. Mas ela era uma mulher forte, manuseava o arco e flechas com excelência, sabia caçar e certamente se sairia muito bem em sua jornada.
Mas Red Shawl não estava preparada para o que a esperava…
Depois de muita caminhada ela decidiu montar um pequeno acampamento para que ela e seu filho pudessem descansar por alguns dias.
Tudo estava indo muito bem, até que uma grande tempestade se formou, escurecendo o céu.
Tempestades de verão são consideradas pelos nativos, como a mais poderosa das criaturas que vivem nas planícies e os ventos são considerados a segunda.
Mais fortes do que o urso, mais perigosos do que o leopardo.
Red Shawl nunca havia enfrentado uma tempestade como aquela e agora estava sozinha, com seu filho para proteger.
Os ventos fortes levaram seu acampamento, seus pertences e toda sua provisão. Precisou de muita força e determinação para proteger seu filho. Pela primeira vez ela soube o que era estar sozinha…
A tempestade a açoitou e chacoalhou e a fez entender que a vida é uma jornada cheia de acontecimentos inesperados, como a chegada de uma segunda esposa para seu marido.
Red Shawl olhou para seu filho e percebeu que sua atitude o havia colocado naquela situação de perigo.
As águas da chuva começaram a subir rapidamente.
Desesperada Red Shawl procurava um abrigo, sem sucesso, até que avistou um enorme algodoeiro e amarrou o berço de seu filho na forquilha mais alta e mais forte que pôde alcançar.
Aos prantos ela gritou “Pai, leve-me se quiser, mas poupe meu filho!”
A correnteza a derrubou e a arrastou para longe.
Quando recobrou a consciência, seu corpo estava todo dolorido e gelado e não conseguia descobrir onde havia ido parar. Tentou ficar em pé e percebeu que havia torcido o tornozelo.
Na escuridão da noite ela viu estrelas no céu. A tempestade havia passado.
Mas Red Shawl só conseguia pensar em seu filho. O que teria acontecido a ele? Tentando manter a calma lembrou-se do algodoeiro. Talvez a tempestade não tivesse levado seu filho.
Ignorando a dor, ela se levantou determinada a encontrar aquela árvore e começou a caminhar a esmo.
Os pássaros começaram a acordar e ela notou um brilho pálido no horizonte. Estava amanhecendo e isso a ajudaria a encontrar seu filho.
Por volta do meio-dia ela chegou ao vale que havia sido inundado e reconheceu o enorme algodoeiro no qual deixara seu filho preso.
Mas ele não estava lá…
Desesperada ela começou a vasculhar a área em meio a gravetos e lama na esperança de encontrar seu filho entre os destroços deixados pela tempestade.
Já estava escurecendo e o desalento tomava conta de seu corpo.
Chorando, gritando e orando Red Shawl disse: “Vós, que viveis nas nuvens, tende piedade do meu filho. Ele é tão pequeno e indefeso. Leve seu espírito até o criador! E se tiver piedade, leve-me com ele!”
Mais uma vez ela caiu e não conseguia se mexer. Ela podia ver o rosto de seu bebê em sua mente e conseguia ouvir sua voz.
Tateando pelo chão, tocou em alguma coisa diferente. Nesse instante um grande relâmpago rasgou o céu e ela pode ver com o clarão, o berço de seu filho e o ouviu chorar. Ela agarrou o berço e o menino estava lá, como que por um milagre!
“Gratidão!” ela exclamou. “Obrigada a você que vive nas nuvens.”
Ela alimentou seu filho e os dois pegaram no sono agarrados um ao outro.
Na manhã seguinte, começaram sua jornada de volta pra casa.
No caminho, seu marido White Wing a encontrou. A família estava unida novamente.
White Wing conta para Red Shawl que havia decidido levar Necklace de volta para a casa de seus avós e disse: “Existem bons homens com quem ela poderá se casar.”
“Não!”, respondeu Red Shawl, “Isso traria vergonha para ela. Eu a receberei em nossa tenda, porque eu sempre me sentirei honrada por ser sua primeira esposa”.
E Red Shawl contou a seu marido sobre a tempestade, a inundação e como seu filho lhe foi devolvido pelo trovão.
Red Shawl nunca questionou como o trovão devolvera seu filho, mas esse mistério sempre lhe trouxe muita alegria e ela encarou o ocorrido como um presente que precisava ser retribuído.
Necklace foi muito bem recebida em sua tenda e com o tempo tornaram-se como irmãs.
O filho de Red Shawl cresceu alto e forte, muito devotado à sua mãe.
Quando completou 15 anos, seu pai White Wing, lhe concedeu o nome que sua mãe havia lhe dado e pelo resto de sua vida ficou conhecido como Wakinyan Aglipi, ‘Devolvido pelo trovão’.
Red shawl viveu muitos anos e foi tida como uma boa e  sábia mulher. Toda vez que trovões eram ouvidos e raios rasgavam o céu, ela saia de sua tenda e cantava uma canção de louvor para honrar aqueles que viviam nas nuvens.

Até mesmo uma atitude tola, pode levar alguém à sabedoria.

*Cradleboard/Berço: Forma tradicional usada pelos povos nativos para carregar seus bebês. Vide fotos ilustrativas a seguir.

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Honra

 

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Honra
Wayuonihan
(ter integridade, ser honesto, ter caráter)

Dando sequência à nossa jornada pelas virtudes buscadas pelo povo Lakota, hoje escreverei sobre uma muito importante, a honra!
A honra é um princípio que leva alguém a ter uma conduta digna e que lhe permite gozar de bom conceito junto à sociedade em que vive.
Envolve integridade, honestidade e força de caráter.
Para o povo Lakota, a cor relacionada à honra é o vermelho.
Muitas vezes a honra exige coragem e é exatamente sobre isso que versa a história que contarei a seguir.

Ha muito, muito tempo atrás, quatro caçadores empreenderam uma jornada às grandes montanhas chamadas de Black Hills (Paha Sapa), que se estendem do oeste de Dakota do Sul, até o estado de Wyoming.
Essas montanhas são muito importantes para os povos nativos da região, porque eles acreditam que o primeiro indivíduo de sua raça, surgiu de uma caverna dessas montanhas, atualmente chamada de Wind Cave.
Nessa região a caça é abundante!
Quando os quatro guerreiros alcançaram as Black Hills, resolveram montar um acampamento e descansar.
Durante a noite um deles levantou para alimentar a fogueira e teve uma visão assustadora. Uma enorme serpente havia deitado ao redor do acampamento.
A princípio o guerreiro achou que estivesse sonhando, mas ao constatar que a gigantesca serpente era real, acordou os demais companheiros para que, em total silêncio, também pudessem conferir o que estava acontecendo.
Assustado, o guerreiro mais jovem pergunta:
“O que devemos fazer? Poderíamos mata-la, se todos nós atirássemos flechas ao mesmo tempo.”
O mais velho, porém, argumentou que, caso eles não conseguissem mata-la com as flechas, ela certamente os devoraria em seguida.
Nada em suas vidas os haviam preparado para enfrentar uma situação como essa.
A serpente era tão alta quanto um búfalo e certamente seriam precisos vinte búfalos enfileirados para corresponder ao seu comprimento.
Depois de muitas conjecturas, o guerreiro mais velho disse que só haveria uma maneira de sair da armadilha em que se encontravam. Eles teriam que pular a serpente onde a cabeça encontrava com a cauda, o único lugar um pouco mais baixo do que o resto do corpo da mesma.
Eles atirariam suas armas por sobre a serpente, para fora do círculo primeiro e depois, um a um arriscariam o salto.
O guerreiro mais jovem seria o primeiro a pular, mas ele estava tão apavorado que outro companheiro se ofereceu para ser o primeiro.
Tomando a maior distância possível, o primeiro conseguiu saltar em segurança e o segundo foi logo atrás.
Com isso o guerreiro mais jovem ganhou confiança e se preparou para pular. Quando ele estava bem perto, a serpente levantou a cabeça, fazendo com que ele batesse nela e caísse no chão desacordado.
O guerreiro mais velho rapidamente puxou o amigo para trás, esperando que a serpente devorasse os dois. Houve um silêncio interminável!!!
Quando o guerreiro mais jovem recobrou a consciência, a serpente simplesmente foi embora.
O jovem então conta que a serpente havia falado com ele em pensamento e que garantiu que não voltaria, caso eles fizessem o que ela lhes ordenara.
Eles deveriam viajar rumo ao norte, até alcançarem um rio e seguir por ele até um vale. Nesse vale eles encontrariam uma cabana com uma porta vermelha.
Nessa cabana vivia um homem com uma cicatriz abaixo dos olhos, sua esposa e uma criança. Esse homem os estaria esperando. Dois guerreiros deveriam ficar protegendo a cabana e os outros dois deveriam acompanha-lo até um lago distante que esse homem deveria atravessar.
Mesmo sem entender muita coisa e até duvidando que a serpente houvesse transmitido alguma mensagem, todos decidiram que deveriam fazer o que ela lhes havia ordenado e seguiram viagem rumo ao norte, com receio de que a serpente pudesse voltar e devorar a todos.
Depois de muita caminhada em silêncio, os quatro chegaram ao esperado vale e para surpresa de todos, lá estava a cabana com uma porta vermelha.
Ao se aproximarem, um homem de meia idade veio ao encontro deles e, de fato, ele tinha uma grande cicatriz no rosto, logo abaixo dos olhos. A serpente havia mesmo falado com o guerreiro mais jovem.
O homem e sua família os receberam em sua casa e lhes ofereceram comida.
Depois de comerem, o homem com a cicatriz disse que sabia que tinham uma mensagem para ele.
O guerreiro mais velho revelou o propósito de sua jornada e disse:
“Dois de nós ficarão aqui para proteger sua família e os outros dois deverão acompanha-lo. Serão muitos dias de viagem. Devemos chegar a um lago e você deverá atravessa-lo. Se conseguir chegar até a outra margem, poderá voltar para casa.”
“Sim”, disse o homem com a cicatriz no rosto. “Eu viajarei com vocês.”
Naquela noite, os quatro montaram um pequeno acampamento perto da cabana. Todos estavam muito confusos. Afinal, por que uma serpente falaria com eles? Por que o homem deveria atravessar o lago? Ainda, por que aquele homem vivia com sua família alí, isolado dos demais? O que teria acontecido com ele?
Chegado o momento da partida, ficou definido que o guerreiro mais velho e o mais jovem acompanhariam o homem até o lago, enquanto os outros dois ficariam e guardariam sua casa e família até seu retorno.
E nada mais foi dito a respeito do assunto.
A jovem esposa se despediu do companheiro com lágrimas e o acompanhou com os olhos até o perder de vista.
Foram quinze dias de caminhada, até alcançarem e atravessarem o grande Muddy River em direção ao lago. Novamente, nenhuma palavra foi dita acerca da missão.
Quando finalmente chegaram ao lago, notaram um silêncio estranho. Não haviam animais ou aves no lugar. Até o ar parecia parado.
Então o homem da cicatriz disse:
“Amanhã cedo entrarei no lago, como vocês me orientaram. Acho que sei o que me espera. Se eu não alcançar a outra margem, por favor, levem minhas coisas para minha esposa e a acompanhem de volta à sua família. Perguntem também, a ela, o que quiserem saber sobre mim. Ela lhes dirá tudo.
Uma coisa era certa nessa história toda. O homem com a cicatriz no rosto era muito corajoso!
Na manhã seguinte, os dois guerreiros assistiram o homem com a cicatriz fazer suas orações, despir-se e entrar no lago cantando sua canção de morte.
O lago era raso até quase a metade de sua extensão. Quando o homem chegou ao meio, ondulações começaram a se formar nas águas paradas do lago e num picar de olhos, um vulto negro surgiu na superfície e o arrastou para baixo. Em seguida, as águas voltaram a ficar calmas.
Os dois guerreiros correram até a margem do lago, mas sabiam que não poderiam fazer nada. Permaneceram lá a manhã inteira na esperança de que o homem voltasse.
Mas nada aconteceu.
Vinte dias de viagem de volta à cabana com a porta vermelha.
Os outros dois guerreiros esperavam em vigilia.
Assim que os avistaram, contaram que a jovem esposa chorou desde que eles partiram e que, em sinal de luto, havia cortado os cabelos.
Ela sabia que seu marido não regressaria.
Mais alguns dias se passaram até que a jovem finalmente falou com eles.
“Devo voltar para meu povo.”
“Sim, nós a levaremos até eles. Seu marido nos pediu que assim o fizéssemos,” disse o mais velho.
Durante o caminho de volta ao seu povoado, a jovem viúva nada falou.
Ao chegarem a jovem foi calorosamente recebida por sua família e os guerreiros foram convidados a permanecer o tempo que quisessem. Resolveram descansar por alguns dias.
Na tarde em que se preparavam para partir, a jovem viúva foi conversar com eles.
Ela disse:
“Preciso lhes falar sobre meu marido.
Quando ele era jovem, tinha um bom amigo que se tornou um poderoso feiticeiro. Mas ele escolheu o lado escuro da magia e se tornou aliado de espíritos maus.
Meu marido se afastou dele e se tornou um grande líder do nosso povo.
O feiticeiro ficou enciumado e usou seus poderes contra meu marido. Com sua magia, ele matou sua primeira esposa, mas mesmo assim meu marido não aceitou se juntar a ele. O feiticeiro foi ridicularizado por toda a aldeia. Com o passar do tempo, ele enlouqueceu e morreu.
Nessa ocasião um espírito mau veio até meu marido e disse que ele seria punido pela morte do feiticeiro.
Ele deveria fazer uma escolha: Ele poderia aceitar a vergonha do banimento ou assistir toda a aldeia ficar enlouquecida como o feiticeiro havia ficado.
Meu marido escolheu o banimento.
O espírito então lhe disse que quatro homens viriam ao seu encontro para leva-lo, mas que ele não saberia quando isso aconteceria. O espírito queria que meu marido vivesse cada dia como se fosse seu último.”
“E como você se tornou a esposa dele?”, perguntou o mais jovem.
“Meu pai me contou a história desse corajoso e honrado homem e disse que uma bravura e uma honra como essa, não poderiam morrer com ele. Deveriam ser passadas adiante. E eu me tornei sua esposa e lhe dei um descendente.”
Os quatro guerreiros voltaram pra casa naquele dia.
Quando contaram sua história, muitos não acreditaram. Mas os quatro se tornaram os homens mais honrados de seu povo.
Se existem mesmo serpentes gigantes?
Bom, não se pode dizer que sim ou que não. Mas certamente existem muitas coisas poderosas, incríveis e misteriosas por aí.

Wophila JMMIII

Perseverança

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Perseverança
Wowacintanka (Persistir, esforçar-se apesar das dificuldades)

Em meus posts anteriores sobre as virtudes buscadas pelos povos Lakota, falei sobre a Humildade, o Respeito e a Gratidão.
Hoje falarei um pouco sobre a Perseverança.
Vale a pena mencionar que na cultura Lakota, as crianças eram orientadas desde bem cedo e, naturalmente, para que houvesse um maior entendimento das lições a serem aprendidas, histórias eram contadas, o que permitia não apenas o entendimento, mas a incorporação do ensinamento à vida de cada novo indivíduo.
Eram as mães e as avós as responsáveis por orientar as crianças até a idade de 5 anos. Portanto esse trabalho de formação de caráter, começava bem cedo.
Nossa história de hoje fala de perseverança.
Sabemos que para alcançar qualquer objetivo na vida, precisamos lutar, correr atrás, nos dedicar de fato, persistir.
Aprender um novo idioma, um novo ofício, aprender a dirigir um carro, enfim, todo novo aprendizado requer esforço.
Talvez nesse exato momento você esteja se empenhando em alcançar um novo objetivo! Quanto trabalho, quanta dedicação será preciso?
Muitas vezes chegamos a pensar em desistir frente a tantos obstáculos…
Se você se encontra numa situação como essa, a história a seguir poderá lhe dar um novo ânimo, força e coragem.
Na região de Dakota do Sul, vivia um povo chamado Red Calf (Bezerro Vermelho).
Um casamento acabara de ser realizado entre “Cloud”, um grande guerreiro e “Plum”, uma linda jovem.
Eles se casaram no verão e naquele ano a tribo estava enfrentando as terríveis tempestades próprias dessa época, com ventos muito fortes, trovões assustadores e muita, muita água.
A aldeia se protegia como podia, mas era difícil manter tudo e todos em segurança.
Numa determinada noite em meio a um terrível temporal, um barulho mais assustador do que o dos ventos ou dos trovões, foi ouvido!
Gritos de horror, o uivo e latidos nervosos dos cachorros, homens correndo e dando gritos de alerta em função de uma nova e grande ameaça.
Algo mais poderoso do que a tempestade, estava destroçando toda a aldeia e atacando as pessoas.
Era Iya, o gigante, com a força de centena de homens e a altura de diversas cabanas.
Iya estava faminto e estava destruindo tudo em busca de comida. Ele estava comendo as mulheres da aldeia!
Com sua enorme mão, Iya derrubou a morada de Cloud e Plum e num piscar de olhos, agarrou Plum e a jogou goela abaixo.
Cloud em desespero, atirou diversas flechas no gigante que infelizmente não produziram efeito algum. Nada conseguia deter a criatura.
Depois de intermináveis minutos de horror, os sobreviventes assistiram Iya ir embora de barriga cheia, deixando uma trilha de pegadas inacreditáveis de tão grandes.
O conselho da tribo imediatamente se reuniu e decidiu que a aldeia precisava ser movida para outro lugar porque agora que o gigante sabia onde eles estavam, certamente voltaria para fazer mais uma refeição. As providências para a mudança começaram na mesma hora.
Mas Cloud estava devastado, inconformado! O gigante havia levado embora a mulher que ele escolhera para passar o resto de seus dias, para ter filhos, formar uma família. Ele precisava fazer alguma coisa!
Com a permissão do conselho, Cloud reuniu sete guerreiros para irem ao encalço da criatura.
A princípio nenhum deles sabia exatamente o que fazer porque o gigante parecia indestrutível.
Foi então que Cloud teve a ideia de atrai-lo para uma armadilha.
O plano apesar de parecer absurdo, era cavar um enorme buraco no qual o gigante pudesse cair e ficar preso.
Mas seria preciso cavar um buraco muito, muito grande!
Um dos guerreiros precisaria se oferecer como isca ao gigante, correr muito e fazer com que o mesmo o seguisse até a armadilha. Uma tarefa nada fácil…
Ficou estabelecido que 6 guerreiros cavariam o buraco enquanto Cloud e seu amigo Yellow Hawk procurariam o gigante e o atrairiam até o local combinado. E claro, o buraco já deveria ter sido cavado e camuflado.
Foram dias de trabalho exaustivo! Por mais que cavassem o buraco nunca parecia ser grande o suficiente.
Cloud e Yellow Hawk encontraram o gigante adormecido e sua perigosa e desafiadora missão estava começando.
A princípio os dois guerreiros fizeram fogueiras para chamar a atenção de Iya. A fumaça atraía o gigante até a primeira fogueira e quando ele a alcançava os dois guerreiros, tomando uma boa distância, acendiam outra. E foi assim que Cloud e Yellow Hawk deram tempo para que os outros seis companheiros conseguissem cavar o enorme buraco.
Tudo estava correndo conforme o planejado, até que Iya avistou Cloud e Yellow Hawk. Uma terrível caçado havia começado.
Cloud orientou Yellow Hawk a voltar e ajudar os outros seis com o buraco, enquanto ele tentaria despistar o gigante até que tudo estivesse pronto.
A situação era desesperadora, pois cada passo do gigante, equivaliam a 10 passos de Cloud. Cloud precisaria correr muito para não se pego.
Quando suas energias estavam chegando ao fim, Cloud reconheceu o sinal de fumaça dos amigos avisando que a tarefa estava concluída. Um buraco de proporções inacreditáveis estava cavado e coberto de arbustos secos.
Quase sem aguentar correr mais, muito cansado para ter qualquer tipo de medo, Cloud lembra da imagem da esposa em seu vestido especial no dia de seu casamento e imagina os filhos que poderia ter com ela.
Isso lhe trouxe um sopro de esperança e energia suficiente para continuar correndo.
Seus amigos assim que o avistaram, se esconderam para não desviar a atenção do gigante.
Cloud atravessa cuidadosamente os arbustos arrumados por seus companheiros e por um único centímetro não é pego pela criatura.
Ao pisar nos arbustos, Iya despenca para dentro do enorme buraco e fica completamente entalado.
Iya luta durante a noite inteira para escapar da armadilha, até que suas forças acabam e ele morre ali mesmo.
Quando todos percebem que o gigante havia morrido, Cloud pega sua faca e corre em direção de Iya, cortando seu estômago de ponta a ponta.
Ele grita por ajuda quando encontra o corpo de uma mulher mais morta do que viva, coberta de lama e outras substâncias horríveis.
Mas ela estava viva!!!!
Plum e todas as outras mulheres que haviam sido devoradas pelo gigante, estavam lá resistindo e conseguiram sobreviver ao ataque.
Cloud e Plum tiveram dois filhos, um menino e uma menina a quem contaram a história do terrível gigante e da perseverança necessária para salvar aquelas vidas.
Os dois envelheceram juntos e essa aventura de coragem e determinação, rendeu a Cloud uma posição de honra entre seu povo que o seguia por sua sabedoria e persistência.
Lá no meio do descampado existe uma colina coberta de grama e cactos e muita gente a visita. Para a maioria, ela não passa de uma colina comum, mas para alguns ela é a cova do gigante Iya.
De qualquer forma, essa colina é fruto do amor, da coragem e da perseverança.

 

Generosidade

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GENEROSIDADE
Canteyukee
(Dar, Dividir, Ter Coração)

O inverno sempre foi uma estação difícil para o povo Lakota que vivia nas planícies da América do Norte. Ventos fortes e muita neve dificultavam a vida desse povo que vivia exclusivamente da caça. Nesse período do ano, os animais costumavam migrar para outras regiões em busca de sobrevivência e da mesma forma, o povo nativo mudava sua aldeia de lugar. Mas nem sempre havia tempo suficiente para deslocar um acampamento inteiro.
Foi exatamente assim que certa vez, uma aldeia se viu com poucas provisões, encarando um inverno muito rigoroso. A fome e o frio já estava fazendo vítimas, especialmente entre os mais velhos.
Numa reunião, os anciãos de tribo decidiram que seria preciso enviar dois de seus melhores caçadores a procura de suprimentos, antes que fôsse tarde demais.
Naquela noite, Sees the Bear (Vê o Urso) e Left Hand (Mão Esquerda), prepararam suas armas e provisões para saírem na difícil jornada.
Rumariam para a região das florestas, um território que eles ainda não conheciam.
Sempre atentos a eventuais trilhas deixadas por algum animal, seguiram andando, dias e dias de viagem.
Já estavam sem provisões e o frio era tanto, que mal conseguiam acender um fogo para se aquecer à noite.
Numa determinada tardinha, eles ouvem um barulho e percebem um vulto passar por eles. Era uma corsa! Uma grande corsa preta e cinza, como eles nunca haviam visto antes.
Rapidamente pegaram seus arcos mas com os dedos congelados de tanto frio, custaram a preparar suas flechas. A corsa estava quase fora do alcance dos dois, quando finalmente conseguiram abate-la.
Naquela noite os dois caçadores conseguiram matar sua fome.
No dia seguinte, prepararam a caça para leva-la de volta a aldeia e alimentar seu povo que os esperava.
Vários dias de viagem novamente…
À noite, os caçadores se revezavam para tomar conta da caça, com receio de que algum animal a pudesse roubar.

Na segunda noite de vigília, Sees the Bear pensou que estava tendo um sonho, quando viu um coiote muito magro se aproximar do acampamento.
“Inverno rigoroso, esse”, disse o coiote. “Minha família está faminta. Se você for uma alma generosa, poderá me dar um pouquinho da carne que conseguiu. Precisamos só de um pedacinho para sobreviver.”
Sees the Bear sem acreditar no que estava acontecendo, chamou Left Hand rapidamente para que ele também visse. “Nunca vi um coiote tão perto assim do fogo.” respondeu assustado
“Vocês são grandes caçadores e sei que têm bom coração.” disse o coiote. “Sou velha, já vivi bastante, mas é por minha família que eu suplico sua bondadde”, ela acrescentou.
Left Hand imediatamente disse que não poderia ajudar. “Precisamos levar esse alimento pra casa. Nosso povo também está com fome.”
“Os espíritos foram bondosos conosco” disse Sees the Bear e prontamente cortou um pedaço de carne e a atirou ao coiote que agradeceu dizendo:
“À noite minha família cantará para vocês em gratidão.”
Left Hand ficou muito bravo e disse que aquilo tinha sido a coisa mais estúpida que ele havia visto na vida.

Mais dois dias se passaram quando Sees the Bear ouviu uma gralha lhe dizer: “Os lobos comeram todas as entranhas da corsa que vocês deixaram pra trás. Não sobrou praticamente nada para nós. Estamos com muita fome”.
Antes que Left Hand o pudesse impedir, Sees the Bear cortou algumas tiras de carne e as atirou para as gralhas.
“Nós o recompensaremos por sua bondade. De hoje em diante se vocês não nos virem por perto, será sinal de que tempos difíceis estão a caminho. Enquanto vocês puderem nos avistar, haverá abundância e viremos lhes anunciar.”
Mais uma vez Left Hand ficou muito bravo com o companheiro.

Mas alguns dias de viagem e Sees the Bear avistou um lobo com a pata muito machucada.
Left Hand já foi logo avisando que se ele estava alí para ganhar alguma carne, poderia ir embora porque ele não lhe daria nenhuma.
“Fico triste ao ouvir isso” disse o lobo. ” Como você pode ver, estou com a pata ferida e apesar de saber onde encontrar as corsas, não consigo persegui-las e alcança-las. Minha esposa deu a luz e precisa comer para alimentar os pequenos”.
E completou: “O inversno está muito severo e pensei que poderia contar com a sua bondade.”
Sees the Bear disse em seguida:”Temos o suficiente. Pode contar com nossa ajuda.” deixando Left Hand mais furioso!
“Eu agradeço” disse o lobo. “Por sua bondade você terá minhas habilidades de caçador.”
Left Hand não falou mais com Sees the Bear que o havia lembrado das lições de generosidade que ambos receberam quando crianças.

E foi uma raposa que se aproximou do acampamento dessa vez. Ela disse “Nunca vi um inverno tão rigoroso. A neve está tão alta que fica muito difícil andar porque tenho patas pequenas. O coelho pode correr na superfície da neve enquanto que eu afundo. Estava pensando se você seria generoso o suficiente para me dar um pouco da sua carne”.
Left Hand estava dormindo e Sees the Bear aproveitou para dar o que comer à raposa.
“Temos o suficiente para compartilhar” ele disse.
Agadecendo, a raposa falou: “Meu povo é muito bom em se camuflar. Por sua bondade, essa habilidade também será sua.”
Na manhã seguinte Left Hand percebeu que mais um pedaço da carne havia sumido e para ele isso já era demais!
“Estou voltando para a aldeia sozinho. Vou buscar ajuda para carregar o que sobrou da nossa carne”.
Sees the Bear foi deixado sozinho para trás e mesmo assim, com muita dificuldade, prosseguiu sua caminhada.

Na manhã seguinte ele se deparou com um falcão com uma asa machucada.
“O que lhe aconteceu?”, perguntou, e o falcão respondeu: “Precisei brigar com um gato do mato que me atacou para roubar o coelho que eu havia caçado. Agora não posso voar. Não como nada ha dias!”
Sees the Bear cortou mais um pedaço de carne e o entregou ao falcão.
“Sou-lhe muito grato. Da próxima vez que sair para caçar, siga nessa direção até encontrar um lago. A caça por lá é muito boa e mesmo quando a neve chegar, você poderá pescar o salmão.”
Naquela tarde Sees the Bear conseguiu chegar perto da aldeia, mas não podia mais carregar o resto da carne sozinho, então resolveu enterra-la na neve e seguir para a aldeia sem nenhum peso extra.
Os anciãos esperavam por ele.
“Left Hand nos contou o que aconteceu”, eles disseram. “Agora é a sua vez de nos contar.”
Sees the Bear disse toda a verdade ao que os anciãos responderam: “Alguma comida é melhor do que nenhuma.”
Sees the Bear percebeu o olhar de desapontamento das pessoas na aldeia. Com a cabeça baixa, dirigiu os demais até o local em que havia enterrado o resto da carne.
Left Hand foi o primeiro a puxar a corsa pela perna, mas estava muito pesada e precisou da ajuda de mais quatro homens.
Quando conseguiram tirar a corsa da neve, perceberam surpresos que ela estava inteirinha!
“Não é possível” ele gritou. “Não havia nem a metade quando eu o deixei pra voltar para a aldeia”
Enquanto todos olhavam para a carcaça intacta do animal, uma imagem fantasmagórica da grande corsa apareceu a todos e disse:
“Eu sou a corsa que vive na floresta. Existem muitos de nós. Nossa carne lhes dará forças.
Pedimos em retorno, porém, que vocês sempre demonstrem sua gratidão pelo presente da vida. Se assim o fizerem, estaremos sempre prontos a ajuda-los. Generosidade é uma excelente qualidade, porque todos estamos viajando juntos nessa terra.” E dizendo isso, desapareceu.
Sees the Bear foi homenageado por sua atitude e daquele dia em diante passou a ser chamado de Bings the Deer, (quem trás a corsa).
Sempre que caçava para seu povo, Brings the Deer parava para agradecer por aquela vida que lhe foi entregue.
Quando a primavera chegou, a aldeia mudou-se para a beira do lago que o falcão havia mencionado. Sim, haviam provisões em abundância.
Brings the Deer se tornou um hábil caçador e parecia ser dotado de poderes e abilidades que mais ninguém possuía.
Durante toda sua vida, sempre jogou pedaços de carne para as gralhas que cumpriram o que haviam prometido, lhe avisar se um inverno muito rigoroso estava a caminho.
Brings the Deer fazia um pequeno ritual que ensinou aos demais. Cada vez que uma corsa fosse abatida numa caçada, ele parava, ficava alguns minutos em silêncio e colocava um punhado de sálvia no local, como uma oferenda.
Muios caçadoes Lakota passaram a fazer a mesma coisa em gratidão pelo presente da vida recebido.
Comenta-se que Brings the Deer sempre sorria ao ouvir coiotes cantando suas canções.

Quantas coisa recebemos diariamente!
A vida, o alimento, o ar que respiramos, a água. Temos nossas famílias, nossos amigos, nossos animais de estimação, nossas casas.
Recebemos generosamente a chuva e o sol.
Temos as flores, as árvores, todos as criaturas de quatro pernas, as voadoras, as raastejantes, as nadadoras. Tanta beleza, tantas provisões!
Sabemos agradecer?
Ajudamos àqueles que precisam? Doamos nosso tempo, nossa atenção, nosso esforço, amor, recursos materiais para ajudar toda e qualquer forma de vida que esteja em necessidade?

Precisamos lembrar sempre que todos nós andamos pela mesma estrada aqui na mãe Terra. Podemos andar em beleza por essa estrada vermelha da vida, sabendo dividir, compartilhar, se importar com todas as outras formas de vida que Wakantanka, o Gramde Espírito, colocou aqui sobre a mãe Terra, certamente com um propósito.
Que possamos perceber as necessidades dos outros e, na medida do nosso possível, amenizar as dificuldades. Se todos fizermos um pouquinho, conseguiríamos mudar muita coisa.
Que possamos assim como Brings the Deer, colher os bons frutos de nossas boas ações, e Canteyukee: Ter Coração.

 

Sempre com gratidão a J.M.M.III

Respeito

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No artigo anterior falei um pouco sobre a humildade e como o grande guerreiro Crazy Horse foi um exemplo dessa virtude.
Dando continuidade aos artigos sobre as virtudes buscadas pelo povo Lakota, hoje vou falar um pouco sobre o ‘Respeito’.
Para ilustrar esse tema, vou contar uma das centenas de histórias que os mais velhos costumavam contar para seus filhos e netos, com o intuito de faze-los entender mais facilmente, a importância de se ouvir, entender e colocar em prática os ensinamentos que os ajudariam a viver com dignidade e harmonia.
Felizmente ainda existem descendentes desse povo que valorizam esses ensinamentos e que se dispõe a nos transmitir bondosamente.
Vou contar a história da “Mulher Cervo”.
Havia um jovem guerreiro que se tornara um exímio caçador. Sempre que saia para uma caçada, toda a aldeia sabia que ele demoraria alguns dias para voltar, mas certamente chegaria com provisões para todos.
Vamos chama-lo de ‘Koskalaka’ (que significa homem jovem), já que não sabemos seu nome.
Koskalaka vivia com sua avó para ajuda-la e fazer-lhe companhia, em vista de que a mesma era viúva.
Em gratidão, ela sempre lhe contava histórias fascinantes que Koskalaka adorava ouvir.
Entre elas havia essa sobre a Mulher Cervo.
A Mulher Cervo, segundo a história, era de uma beleza estonteante! Tão linda que qualquer um que dela se aproximasse, ficaria perdidamente apaixonado.
Ela vivia em uma tenda pequena mas aconchegante, e um fogo convidativo sempre brilhava em frente da mesma. Mas ninguém conseguia encontra-la por mais que a procurassem. Ela só era avistada quando um caçador, longe de casa, estivesse sozinho, cansado e com fome.
Ela o atraía para sua tenda, oferecendo-lhe alimento, calor, carinho e prazeres, até que o mesmo caísse no sono.
Quando o caçador acordava na manhã seguinte, descobria que a linda mulher havia desaparecido e havia levado com ela seu sossego, seu juízo.
Uma vítima dessa armadilha, como que num encantamento macabro, nunca mais teria paz e passaria o resto da vida procurando, em vão, reencontrar a Mulher Cervo.
A avó de Koskalaka o advertiu sobre o perigo de encontra-la na mata, aceitar seu convite e perder a cabeça para sempre.
“Alguns homens são feridos em batalhas ou enquanto estão caçando. Esses ferimentos podem ser curados, mas com o espírito é diferente. Se o seu espírito for ferido, ele talvez nunca mais possa ser curado”, dizia ela.
No outono seguinte, Koskalaka fez os preparativos para sua caçada. Precisava trazer provisões para a aldeia. Ele partiu para sua jornada com mais três outros guerreiros, mas como o verão anterior havia sido muito seco, os animais se distanciaram das regiões que costumavam habitar e os caçadores precisaram viajar muitos dias até conseguirem encontra-los.
Numa determinada tardinha, Koskalaka se afastou de seus companheiros seguindo a trilha deixada por um alce quando avistou uma tenda (tipi) iluminada por uma fogueira e percebeu que o aroma que saía da tenda era particularmente delicioso.
Curioso, mas com muita cautela, ele resolveu chegar mais perto e avistou uma linda mulher.
Ela percebeu sua presença e acenou para ele vindo em sua direção.
“Você deve estar muito cansado” ela disse. “Venha comigo. Eu tenho um bom fogo e um bom lugar para você descansar”.
Koskalaka nunca havia visto uma mulher tão bonita em toda sua vida. Sentiu-se extremamente tentado e por um momento, deu sinal de que a acompanharia. O desejo de segui-la era incontrolável!
Mas Koskalaka sabia exatamente quem ela era!
A Mulher Cervo estava ali, bem na sua frente!
Seus joelhos tremeram e um misto de desejo e medo pareciam se apoderar de seu coração.
Percebendo o receio do caçador, a linda mulher acrescentou, insinuante: “Você é forte e bonito. Eu estava esperando encontrar alguém exatamente como você!”
Nesse instante, quase cedendo aos encantos da misteriosa mulher, Koskalaka ouviu a voz de sua avó dizendo: “Poderá ser a mais difícil decisão da sua vida, mas você precisa fugir dela!”
Imediatamente Koskalaka juntou toda sua força de vontade e disse “Não. Eu não vou com você. Eu sei exatamente quem você é!”
O lindo rosto da Mulher Cervo se contorceu ao perceber que fora rejeitada e uma ventania inesperada, levantou as folhas do chão e sacudiu as árvores.
À frente de Koskalaka agora, havia um cervo furioso!
A tenda convidativa havia desaparecido.
O cervo partiu para o ataque, mas Koskalaka sacou seu arco e suas flechas revidando, o que fez com que o cervo fugisse, desaparecendo na mata.
O resto da caçada foi excelente e Koskalaka voltou para sua aldeia cheio de provisões. Com o tempo tornou-se um líder respeitado por sua sabedoria, calma e decisões acertadas.
Foi o respeito aos ensinamentos de sua avó que salvaram sua vida.
Talvez a Mulher Cervo não apareça aos viajantes solitários atualmente. Talvez ela tenha mudado sua tática. Os tempos são outros e as armadilhas também.
O respeito, porém, será sempre atual!
Não existe sociedade organizada sem que haja respeito.
Não me refiro aqui apenas ao respeito pelos mais velhos. Não existe questionamento sobre isso.
Mas é preciso ampliar gigantescamente essa noção de respeito. Precisamos começar respeitando a nós mesmos! Sermos íntegros, verdadeiros e conhecermos nossos limites.
Em seguida precisa haver o respeito por nossos semelhantes. Respeitar crenças, raças, costumes, enfim, todas as diferenças.
É preciso respeitar todas as formas de vida! Os animais, a natureza, o planeta!
Nunca é tarde demais para se demonstrar respeito.
Isso poderá garantir que você também seja respeitado/a.

Em breve virei recontar mais histórias como essa.

(com gratidão à Joseph M. Marshall III)

 

Sabedoria Atemporal

humildade
Atualmente, um numero crescente de pessoas, busca conhecer melhor as cerimônias, os costumes e crenças dos povos nativos, por reconhecerem a verdade e simplicidade que existem nas mesmas.
Sim, esses povos ancestrais têm muito a nos oferecer e certamente podem nos ajudar a resgatar um estilo de vida mais pleno e significativo.
De grande importância também, será conhecermos melhor algumas virtudes que esses povos buscavam ter durante toda sua vida. Boa parte dessas virtudes parecem ter se perdido ao longo do tempo e seria maravilhoso se também pudéssemos resgata-las.
Inspirada pelos relatos e lendas contadas por um descendente dessa grande nação, um Sicangu/Oglala/Lakota, resolvi dedicar meus próximos posts para comentar algumas dessas virtudes e espero com isso, conseguir tocar seu coração como o meu foi tocado e incentiva-lo/a, a resgatar essa sabedoria ancestral

1 – HUMILDADE

Unsiiciyapi (ser humilde, ser modesto)

Talvez essa qualidade não esteja em voga atualmente. Vivemos num tempo em que as pessoas buscam enaltecer a si mesmas, vangloriar-se o tempo todo. Existe em nosso mundo, uma verdadeira guerra para ver quem sabe mais, quem faz mais, quem tem mais…
Para os tradicionais Lakota, porém, a humildade era uma virtude a ser perseguida durante toda a vida. Diziam que uma pessoa que anda ‘olhando para o chão’, enxerga melhor o caminho…
A humildade era uma qualidade fundamental para a escolha de seus líderes, por exemplo. Uma pessoa humilde que conseguisse se colocar no lugar dos outros, certamente tomaria boas decisões em benefício de toda a tribo.
Para esse povo, a humildade era uma virtude que realçava todas as demais.
Atos e feitos de bravura durante uma batalha, eram compartilhados em ocasiões especiais como na cerimônia “Waktoglaka” (contar suas vitórias). Essa era a única ocasião em que o guerreiro descrevia para os demais presentes, suas façanhas em um campo de batalha.
O objetivo dessas reuniões era compartilhar encorajamento, aprender novas táticas e incentivar uns aos outros. Não era esperado que o guerreiro que havia “contado suas vitórias”, ficasse se vangloriando e repetindo suas façanhas para toda a tribo.
Legends of the Americas by Sunti Pichetchaiyakul
Um dos maiores e mais prestigiados guerreiros Sioux/Oglala/Lakota, foi o lendário Crazy Horse.
Graças à sua incrível liderança, táticas de guerra e a total lealdade de seus guerreiros, conseguiu derrotar o temido general Custer em 1876.
Ele foi o responsável por deter, mesmo que temporariamente, o exército americano, no seu intento de capturar e confinar em uma reserva, todo o povo Lakota.
Teríamos muito a dizer sobre a vida de Crazy Horse, mas quero destacar aqui que, apesar de todo esse reconhecimento como grande guerreiro, ele é lembrado por seu povo, especialmente por ter sido uma pessoa humilde.
Se alguém tivesse o direito de participar da “Waktoglaka”, esse certamente seria Crazy Horse. Mas na realidade, ele nunca participou de uma dessas cerimônias.
Ele próprio, nunca contou suas conquistas. Outros guerreiros faziam isso por ele.
Crazy Horse sempre foi uma pessoa modesta, tímida e, apesar de ter conquistado o direito de usar muitos dos adornos concedidos aos grandes guerreiros, ele sempre se vestiu modestamente e quando usava um adorno, esse não passava de uma única pena.
Apesar de toda sua fama e do seu reconhecimento, ele andava pelo acampamento de cabeça baixa, em humildade, quando teria todo o direito de andar com arrogância.
Crzy Horse nunca se ofereceu para liderar seu povo. Ele simplesmente foi escolhido por todas as suas qualidades, por seu caráter.
Existem muitas lendas e histórias entre os nativos que ilustram a importância de sermos humildes. Certamente voltarei a falar desse assunto.
Se procurássemos a humildade como uma virtude a ser desenvolvida, talvez não tivéssemos em nosso mundo atual, tantos desentendimentos, tantas disputas, tantos conflitos.
Se lembrarmos que todos perdem com a arrogância, talvez possamos encontrar uma forma de tansformarmos nossas vidas, nossos relacionamentos e quem sabe, um dia, nosso mundo…
Ahow

Lourdes Azevedo