Perseverança

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Perseverança
Wowacintanka (Persistir, esforçar-se apesar das dificuldades)

Em meus posts anteriores sobre as virtudes buscadas pelos povos Lakota, falei sobre a Humildade, o Respeito e a Gratidão.
Hoje falarei um pouco sobre a Perseverança.
Vale a pena mencionar que na cultura Lakota, as crianças eram orientadas desde bem cedo e, naturalmente, para que houvesse um maior entendimento das lições a serem aprendidas, histórias eram contadas, o que permitia não apenas o entendimento, mas a incorporação do ensinamento à vida de cada novo indivíduo.
Eram as mães e as avós as responsáveis por orientar as crianças até a idade de 5 anos. Portanto esse trabalho de formação de caráter, começava bem cedo.
Nossa história de hoje fala de perseverança.
Sabemos que para alcançar qualquer objetivo na vida, precisamos lutar, correr atrás, nos dedicar de fato, persistir.
Aprender um novo idioma, um novo ofício, aprender a dirigir um carro, enfim, todo novo aprendizado requer esforço.
Talvez nesse exato momento você esteja se empenhando em alcançar um novo objetivo! Quanto trabalho, quanta dedicação será preciso?
Muitas vezes chegamos a pensar em desistir frente a tantos obstáculos…
Se você se encontra numa situação como essa, a história a seguir poderá lhe dar um novo ânimo, força e coragem.
Na região de Dakota do Sul, vivia um povo chamado Red Calf (Bezerro Vermelho).
Um casamento acabara de ser realizado entre “Cloud”, um grande guerreiro e “Plum”, uma linda jovem.
Eles se casaram no verão e naquele ano a tribo estava enfrentando as terríveis tempestades próprias dessa época, com ventos muito fortes, trovões assustadores e muita, muita água.
A aldeia se protegia como podia, mas era difícil manter tudo e todos em segurança.
Numa determinada noite em meio a um terrível temporal, um barulho mais assustador do que o dos ventos ou dos trovões, foi ouvido!
Gritos de horror, o uivo e latidos nervosos dos cachorros, homens correndo e dando gritos de alerta em função de uma nova e grande ameaça.
Algo mais poderoso do que a tempestade, estava destroçando toda a aldeia e atacando as pessoas.
Era Iya, o gigante, com a força de centena de homens e a altura de diversas cabanas.
Iya estava faminto e estava destruindo tudo em busca de comida. Ele estava comendo as mulheres da aldeia!
Com sua enorme mão, Iya derrubou a morada de Cloud e Plum e num piscar de olhos, agarrou Plum e a jogou goela abaixo.
Cloud em desespero, atirou diversas flechas no gigante que infelizmente não produziram efeito algum. Nada conseguia deter a criatura.
Depois de intermináveis minutos de horror, os sobreviventes assistiram Iya ir embora de barriga cheia, deixando uma trilha de pegadas inacreditáveis de tão grandes.
O conselho da tribo imediatamente se reuniu e decidiu que a aldeia precisava ser movida para outro lugar porque agora que o gigante sabia onde eles estavam, certamente voltaria para fazer mais uma refeição. As providências para a mudança começaram na mesma hora.
Mas Cloud estava devastado, inconformado! O gigante havia levado embora a mulher que ele escolhera para passar o resto de seus dias, para ter filhos, formar uma família. Ele precisava fazer alguma coisa!
Com a permissão do conselho, Cloud reuniu sete guerreiros para irem ao encalço da criatura.
A princípio nenhum deles sabia exatamente o que fazer porque o gigante parecia indestrutível.
Foi então que Cloud teve a ideia de atrai-lo para uma armadilha.
O plano apesar de parecer absurdo, era cavar um enorme buraco no qual o gigante pudesse cair e ficar preso.
Mas seria preciso cavar um buraco muito, muito grande!
Um dos guerreiros precisaria se oferecer como isca ao gigante, correr muito e fazer com que o mesmo o seguisse até a armadilha. Uma tarefa nada fácil…
Ficou estabelecido que 6 guerreiros cavariam o buraco enquanto Cloud e seu amigo Yellow Hawk procurariam o gigante e o atrairiam até o local combinado. E claro, o buraco já deveria ter sido cavado e camuflado.
Foram dias de trabalho exaustivo! Por mais que cavassem o buraco nunca parecia ser grande o suficiente.
Cloud e Yellow Hawk encontraram o gigante adormecido e sua perigosa e desafiadora missão estava começando.
A princípio os dois guerreiros fizeram fogueiras para chamar a atenção de Iya. A fumaça atraía o gigante até a primeira fogueira e quando ele a alcançava os dois guerreiros, tomando uma boa distância, acendiam outra. E foi assim que Cloud e Yellow Hawk deram tempo para que os outros seis companheiros conseguissem cavar o enorme buraco.
Tudo estava correndo conforme o planejado, até que Iya avistou Cloud e Yellow Hawk. Uma terrível caçado havia começado.
Cloud orientou Yellow Hawk a voltar e ajudar os outros seis com o buraco, enquanto ele tentaria despistar o gigante até que tudo estivesse pronto.
A situação era desesperadora, pois cada passo do gigante, equivaliam a 10 passos de Cloud. Cloud precisaria correr muito para não se pego.
Quando suas energias estavam chegando ao fim, Cloud reconheceu o sinal de fumaça dos amigos avisando que a tarefa estava concluída. Um buraco de proporções inacreditáveis estava cavado e coberto de arbustos secos.
Quase sem aguentar correr mais, muito cansado para ter qualquer tipo de medo, Cloud lembra da imagem da esposa em seu vestido especial no dia de seu casamento e imagina os filhos que poderia ter com ela.
Isso lhe trouxe um sopro de esperança e energia suficiente para continuar correndo.
Seus amigos assim que o avistaram, se esconderam para não desviar a atenção do gigante.
Cloud atravessa cuidadosamente os arbustos arrumados por seus companheiros e por um único centímetro não é pego pela criatura.
Ao pisar nos arbustos, Iya despenca para dentro do enorme buraco e fica completamente entalado.
Iya luta durante a noite inteira para escapar da armadilha, até que suas forças acabam e ele morre ali mesmo.
Quando todos percebem que o gigante havia morrido, Cloud pega sua faca e corre em direção de Iya, cortando seu estômago de ponta a ponta.
Ele grita por ajuda quando encontra o corpo de uma mulher mais morta do que viva, coberta de lama e outras substâncias horríveis.
Mas ela estava viva!!!!
Plum e todas as outras mulheres que haviam sido devoradas pelo gigante, estavam lá resistindo e conseguiram sobreviver ao ataque.
Cloud e Plum tiveram dois filhos, um menino e uma menina a quem contaram a história do terrível gigante e da perseverança necessária para salvar aquelas vidas.
Os dois envelheceram juntos e essa aventura de coragem e determinação, rendeu a Cloud uma posição de honra entre seu povo que o seguia por sua sabedoria e persistência.
Lá no meio do descampado existe uma colina coberta de grama e cactos e muita gente a visita. Para a maioria, ela não passa de uma colina comum, mas para alguns ela é a cova do gigante Iya.
De qualquer forma, essa colina é fruto do amor, da coragem e da perseverança.

 

Generosidade

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GENEROSIDADE
Canteyukee
(Dar, Dividir, Ter Coração)

O inverno sempre foi uma estação difícil para o povo Lakota que vivia nas planícies da América do Norte. Ventos fortes e muita neve dificultavam a vida desse povo que vivia exclusivamente da caça. Nesse período do ano, os animais costumavam migrar para outras regiões em busca de sobrevivência e da mesma forma, o povo nativo mudava sua aldeia de lugar. Mas nem sempre havia tempo suficiente para deslocar um acampamento inteiro.
Foi exatamente assim que certa vez, uma aldeia se viu com poucas provisões, encarando um inverno muito rigoroso. A fome e o frio já estava fazendo vítimas, especialmente entre os mais velhos.
Numa reunião, os anciãos de tribo decidiram que seria preciso enviar dois de seus melhores caçadores a procura de suprimentos, antes que fôsse tarde demais.
Naquela noite, Sees the Bear (Vê o Urso) e Left Hand (Mão Esquerda), prepararam suas armas e provisões para saírem na difícil jornada.
Rumariam para a região das florestas, um território que eles ainda não conheciam.
Sempre atentos a eventuais trilhas deixadas por algum animal, seguiram andando, dias e dias de viagem.
Já estavam sem provisões e o frio era tanto, que mal conseguiam acender um fogo para se aquecer à noite.
Numa determinada tardinha, eles ouvem um barulho e percebem um vulto passar por eles. Era uma corsa! Uma grande corsa preta e cinza, como eles nunca haviam visto antes.
Rapidamente pegaram seus arcos mas com os dedos congelados de tanto frio, custaram a preparar suas flechas. A corsa estava quase fora do alcance dos dois, quando finalmente conseguiram abate-la.
Naquela noite os dois caçadores conseguiram matar sua fome.
No dia seguinte, prepararam a caça para leva-la de volta a aldeia e alimentar seu povo que os esperava.
Vários dias de viagem novamente…
À noite, os caçadores se revezavam para tomar conta da caça, com receio de que algum animal a pudesse roubar.

Na segunda noite de vigília, Sees the Bear pensou que estava tendo um sonho, quando viu um coiote muito magro se aproximar do acampamento.
“Inverno rigoroso, esse”, disse o coiote. “Minha família está faminta. Se você for uma alma generosa, poderá me dar um pouquinho da carne que conseguiu. Precisamos só de um pedacinho para sobreviver.”
Sees the Bear sem acreditar no que estava acontecendo, chamou Left Hand rapidamente para que ele também visse. “Nunca vi um coiote tão perto assim do fogo.” respondeu assustado
“Vocês são grandes caçadores e sei que têm bom coração.” disse o coiote. “Sou velha, já vivi bastante, mas é por minha família que eu suplico sua bondadde”, ela acrescentou.
Left Hand imediatamente disse que não poderia ajudar. “Precisamos levar esse alimento pra casa. Nosso povo também está com fome.”
“Os espíritos foram bondosos conosco” disse Sees the Bear e prontamente cortou um pedaço de carne e a atirou ao coiote que agradeceu dizendo:
“À noite minha família cantará para vocês em gratidão.”
Left Hand ficou muito bravo e disse que aquilo tinha sido a coisa mais estúpida que ele havia visto na vida.

Mais dois dias se passaram quando Sees the Bear ouviu uma gralha lhe dizer: “Os lobos comeram todas as entranhas da corsa que vocês deixaram pra trás. Não sobrou praticamente nada para nós. Estamos com muita fome”.
Antes que Left Hand o pudesse impedir, Sees the Bear cortou algumas tiras de carne e as atirou para as gralhas.
“Nós o recompensaremos por sua bondade. De hoje em diante se vocês não nos virem por perto, será sinal de que tempos difíceis estão a caminho. Enquanto vocês puderem nos avistar, haverá abundância e viremos lhes anunciar.”
Mais uma vez Left Hand ficou muito bravo com o companheiro.

Mas alguns dias de viagem e Sees the Bear avistou um lobo com a pata muito machucada.
Left Hand já foi logo avisando que se ele estava alí para ganhar alguma carne, poderia ir embora porque ele não lhe daria nenhuma.
“Fico triste ao ouvir isso” disse o lobo. ” Como você pode ver, estou com a pata ferida e apesar de saber onde encontrar as corsas, não consigo persegui-las e alcança-las. Minha esposa deu a luz e precisa comer para alimentar os pequenos”.
E completou: “O inversno está muito severo e pensei que poderia contar com a sua bondade.”
Sees the Bear disse em seguida:”Temos o suficiente. Pode contar com nossa ajuda.” deixando Left Hand mais furioso!
“Eu agradeço” disse o lobo. “Por sua bondade você terá minhas habilidades de caçador.”
Left Hand não falou mais com Sees the Bear que o havia lembrado das lições de generosidade que ambos receberam quando crianças.

E foi uma raposa que se aproximou do acampamento dessa vez. Ela disse “Nunca vi um inverno tão rigoroso. A neve está tão alta que fica muito difícil andar porque tenho patas pequenas. O coelho pode correr na superfície da neve enquanto que eu afundo. Estava pensando se você seria generoso o suficiente para me dar um pouco da sua carne”.
Left Hand estava dormindo e Sees the Bear aproveitou para dar o que comer à raposa.
“Temos o suficiente para compartilhar” ele disse.
Agadecendo, a raposa falou: “Meu povo é muito bom em se camuflar. Por sua bondade, essa habilidade também será sua.”
Na manhã seguinte Left Hand percebeu que mais um pedaço da carne havia sumido e para ele isso já era demais!
“Estou voltando para a aldeia sozinho. Vou buscar ajuda para carregar o que sobrou da nossa carne”.
Sees the Bear foi deixado sozinho para trás e mesmo assim, com muita dificuldade, prosseguiu sua caminhada.

Na manhã seguinte ele se deparou com um falcão com uma asa machucada.
“O que lhe aconteceu?”, perguntou, e o falcão respondeu: “Precisei brigar com um gato do mato que me atacou para roubar o coelho que eu havia caçado. Agora não posso voar. Não como nada ha dias!”
Sees the Bear cortou mais um pedaço de carne e o entregou ao falcão.
“Sou-lhe muito grato. Da próxima vez que sair para caçar, siga nessa direção até encontrar um lago. A caça por lá é muito boa e mesmo quando a neve chegar, você poderá pescar o salmão.”
Naquela tarde Sees the Bear conseguiu chegar perto da aldeia, mas não podia mais carregar o resto da carne sozinho, então resolveu enterra-la na neve e seguir para a aldeia sem nenhum peso extra.
Os anciãos esperavam por ele.
“Left Hand nos contou o que aconteceu”, eles disseram. “Agora é a sua vez de nos contar.”
Sees the Bear disse toda a verdade ao que os anciãos responderam: “Alguma comida é melhor do que nenhuma.”
Sees the Bear percebeu o olhar de desapontamento das pessoas na aldeia. Com a cabeça baixa, dirigiu os demais até o local em que havia enterrado o resto da carne.
Left Hand foi o primeiro a puxar a corsa pela perna, mas estava muito pesada e precisou da ajuda de mais quatro homens.
Quando conseguiram tirar a corsa da neve, perceberam surpresos que ela estava inteirinha!
“Não é possível” ele gritou. “Não havia nem a metade quando eu o deixei pra voltar para a aldeia”
Enquanto todos olhavam para a carcaça intacta do animal, uma imagem fantasmagórica da grande corsa apareceu a todos e disse:
“Eu sou a corsa que vive na floresta. Existem muitos de nós. Nossa carne lhes dará forças.
Pedimos em retorno, porém, que vocês sempre demonstrem sua gratidão pelo presente da vida. Se assim o fizerem, estaremos sempre prontos a ajuda-los. Generosidade é uma excelente qualidade, porque todos estamos viajando juntos nessa terra.” E dizendo isso, desapareceu.
Sees the Bear foi homenageado por sua atitude e daquele dia em diante passou a ser chamado de Bings the Deer, (quem trás a corsa).
Sempre que caçava para seu povo, Brings the Deer parava para agradecer por aquela vida que lhe foi entregue.
Quando a primavera chegou, a aldeia mudou-se para a beira do lago que o falcão havia mencionado. Sim, haviam provisões em abundância.
Brings the Deer se tornou um hábil caçador e parecia ser dotado de poderes e abilidades que mais ninguém possuía.
Durante toda sua vida, sempre jogou pedaços de carne para as gralhas que cumpriram o que haviam prometido, lhe avisar se um inverno muito rigoroso estava a caminho.
Brings the Deer fazia um pequeno ritual que ensinou aos demais. Cada vez que uma corsa fosse abatida numa caçada, ele parava, ficava alguns minutos em silêncio e colocava um punhado de sálvia no local, como uma oferenda.
Muios caçadoes Lakota passaram a fazer a mesma coisa em gratidão pelo presente da vida recebido.
Comenta-se que Brings the Deer sempre sorria ao ouvir coiotes cantando suas canções.

Quantas coisa recebemos diariamente!
A vida, o alimento, o ar que respiramos, a água. Temos nossas famílias, nossos amigos, nossos animais de estimação, nossas casas.
Recebemos generosamente a chuva e o sol.
Temos as flores, as árvores, todos as criaturas de quatro pernas, as voadoras, as raastejantes, as nadadoras. Tanta beleza, tantas provisões!
Sabemos agradecer?
Ajudamos àqueles que precisam? Doamos nosso tempo, nossa atenção, nosso esforço, amor, recursos materiais para ajudar toda e qualquer forma de vida que esteja em necessidade?

Precisamos lembrar sempre que todos nós andamos pela mesma estrada aqui na mãe Terra. Podemos andar em beleza por essa estrada vermelha da vida, sabendo dividir, compartilhar, se importar com todas as outras formas de vida que Wakantanka, o Gramde Espírito, colocou aqui sobre a mãe Terra, certamente com um propósito.
Que possamos perceber as necessidades dos outros e, na medida do nosso possível, amenizar as dificuldades. Se todos fizermos um pouquinho, conseguiríamos mudar muita coisa.
Que possamos assim como Brings the Deer, colher os bons frutos de nossas boas ações, e Canteyukee: Ter Coração.

 

Sempre com gratidão a J.M.M.III

Respeito

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No artigo anterior falei um pouco sobre a humildade e como o grande guerreiro Crazy Horse foi um exemplo dessa virtude.
Dando continuidade aos artigos sobre as virtudes buscadas pelo povo Lakota, hoje vou falar um pouco sobre o ‘Respeito’.
Para ilustrar esse tema, vou contar uma das centenas de histórias que os mais velhos costumavam contar para seus filhos e netos, com o intuito de faze-los entender mais facilmente, a importância de se ouvir, entender e colocar em prática os ensinamentos que os ajudariam a viver com dignidade e harmonia.
Felizmente ainda existem descendentes desse povo que valorizam esses ensinamentos e que se dispõe a nos transmitir bondosamente.
Vou contar a história da “Mulher Cervo”.
Havia um jovem guerreiro que se tornara um exímio caçador. Sempre que saia para uma caçada, toda a aldeia sabia que ele demoraria alguns dias para voltar, mas certamente chegaria com provisões para todos.
Vamos chama-lo de ‘Koskalaka’ (que significa homem jovem), já que não sabemos seu nome.
Koskalaka vivia com sua avó para ajuda-la e fazer-lhe companhia, em vista de que a mesma era viúva.
Em gratidão, ela sempre lhe contava histórias fascinantes que Koskalaka adorava ouvir.
Entre elas havia essa sobre a Mulher Cervo.
A Mulher Cervo, segundo a história, era de uma beleza estonteante! Tão linda que qualquer um que dela se aproximasse, ficaria perdidamente apaixonado.
Ela vivia em uma tenda pequena mas aconchegante, e um fogo convidativo sempre brilhava em frente da mesma. Mas ninguém conseguia encontra-la por mais que a procurassem. Ela só era avistada quando um caçador, longe de casa, estivesse sozinho, cansado e com fome.
Ela o atraía para sua tenda, oferecendo-lhe alimento, calor, carinho e prazeres, até que o mesmo caísse no sono.
Quando o caçador acordava na manhã seguinte, descobria que a linda mulher havia desaparecido e havia levado com ela seu sossego, seu juízo.
Uma vítima dessa armadilha, como que num encantamento macabro, nunca mais teria paz e passaria o resto da vida procurando, em vão, reencontrar a Mulher Cervo.
A avó de Koskalaka o advertiu sobre o perigo de encontra-la na mata, aceitar seu convite e perder a cabeça para sempre.
“Alguns homens são feridos em batalhas ou enquanto estão caçando. Esses ferimentos podem ser curados, mas com o espírito é diferente. Se o seu espírito for ferido, ele talvez nunca mais possa ser curado”, dizia ela.
No outono seguinte, Koskalaka fez os preparativos para sua caçada. Precisava trazer provisões para a aldeia. Ele partiu para sua jornada com mais três outros guerreiros, mas como o verão anterior havia sido muito seco, os animais se distanciaram das regiões que costumavam habitar e os caçadores precisaram viajar muitos dias até conseguirem encontra-los.
Numa determinada tardinha, Koskalaka se afastou de seus companheiros seguindo a trilha deixada por um alce quando avistou uma tenda (tipi) iluminada por uma fogueira e percebeu que o aroma que saía da tenda era particularmente delicioso.
Curioso, mas com muita cautela, ele resolveu chegar mais perto e avistou uma linda mulher.
Ela percebeu sua presença e acenou para ele vindo em sua direção.
“Você deve estar muito cansado” ela disse. “Venha comigo. Eu tenho um bom fogo e um bom lugar para você descansar”.
Koskalaka nunca havia visto uma mulher tão bonita em toda sua vida. Sentiu-se extremamente tentado e por um momento, deu sinal de que a acompanharia. O desejo de segui-la era incontrolável!
Mas Koskalaka sabia exatamente quem ela era!
A Mulher Cervo estava ali, bem na sua frente!
Seus joelhos tremeram e um misto de desejo e medo pareciam se apoderar de seu coração.
Percebendo o receio do caçador, a linda mulher acrescentou, insinuante: “Você é forte e bonito. Eu estava esperando encontrar alguém exatamente como você!”
Nesse instante, quase cedendo aos encantos da misteriosa mulher, Koskalaka ouviu a voz de sua avó dizendo: “Poderá ser a mais difícil decisão da sua vida, mas você precisa fugir dela!”
Imediatamente Koskalaka juntou toda sua força de vontade e disse “Não. Eu não vou com você. Eu sei exatamente quem você é!”
O lindo rosto da Mulher Cervo se contorceu ao perceber que fora rejeitada e uma ventania inesperada, levantou as folhas do chão e sacudiu as árvores.
À frente de Koskalaka agora, havia um cervo furioso!
A tenda convidativa havia desaparecido.
O cervo partiu para o ataque, mas Koskalaka sacou seu arco e suas flechas revidando, o que fez com que o cervo fugisse, desaparecendo na mata.
O resto da caçada foi excelente e Koskalaka voltou para sua aldeia cheio de provisões. Com o tempo tornou-se um líder respeitado por sua sabedoria, calma e decisões acertadas.
Foi o respeito aos ensinamentos de sua avó que salvaram sua vida.
Talvez a Mulher Cervo não apareça aos viajantes solitários atualmente. Talvez ela tenha mudado sua tática. Os tempos são outros e as armadilhas também.
O respeito, porém, será sempre atual!
Não existe sociedade organizada sem que haja respeito.
Não me refiro aqui apenas ao respeito pelos mais velhos. Não existe questionamento sobre isso.
Mas é preciso ampliar gigantescamente essa noção de respeito. Precisamos começar respeitando a nós mesmos! Sermos íntegros, verdadeiros e conhecermos nossos limites.
Em seguida precisa haver o respeito por nossos semelhantes. Respeitar crenças, raças, costumes, enfim, todas as diferenças.
É preciso respeitar todas as formas de vida! Os animais, a natureza, o planeta!
Nunca é tarde demais para se demonstrar respeito.
Isso poderá garantir que você também seja respeitado/a.

Em breve virei recontar mais histórias como essa.

(com gratidão à Joseph M. Marshall III)

 

Sabedoria Atemporal

humildade
Atualmente, um numero crescente de pessoas, busca conhecer melhor as cerimônias, os costumes e crenças dos povos nativos, por reconhecerem a verdade e simplicidade que existem nas mesmas.
Sim, esses povos ancestrais têm muito a nos oferecer e certamente podem nos ajudar a resgatar um estilo de vida mais pleno e significativo.
De grande importância também, será conhecermos melhor algumas virtudes que esses povos buscavam ter durante toda sua vida. Boa parte dessas virtudes parecem ter se perdido ao longo do tempo e seria maravilhoso se também pudéssemos resgata-las.
Inspirada pelos relatos e lendas contadas por um descendente dessa grande nação, um Sicangu/Oglala/Lakota, resolvi dedicar meus próximos posts para comentar algumas dessas virtudes e espero com isso, conseguir tocar seu coração como o meu foi tocado e incentiva-lo/a, a resgatar essa sabedoria ancestral

1 – HUMILDADE

Unsiiciyapi (ser humilde, ser modesto)

Talvez essa qualidade não esteja em voga atualmente. Vivemos num tempo em que as pessoas buscam enaltecer a si mesmas, vangloriar-se o tempo todo. Existe em nosso mundo, uma verdadeira guerra para ver quem sabe mais, quem faz mais, quem tem mais…
Para os tradicionais Lakota, porém, a humildade era uma virtude a ser perseguida durante toda a vida. Diziam que uma pessoa que anda ‘olhando para o chão’, enxerga melhor o caminho…
A humildade era uma qualidade fundamental para a escolha de seus líderes, por exemplo. Uma pessoa humilde que conseguisse se colocar no lugar dos outros, certamente tomaria boas decisões em benefício de toda a tribo.
Para esse povo, a humildade era uma virtude que realçava todas as demais.
Atos e feitos de bravura durante uma batalha, eram compartilhados em ocasiões especiais como na cerimônia “Waktoglaka” (contar suas vitórias). Essa era a única ocasião em que o guerreiro descrevia para os demais presentes, suas façanhas em um campo de batalha.
O objetivo dessas reuniões era compartilhar encorajamento, aprender novas táticas e incentivar uns aos outros. Não era esperado que o guerreiro que havia “contado suas vitórias”, ficasse se vangloriando e repetindo suas façanhas para toda a tribo.
Legends of the Americas by Sunti Pichetchaiyakul
Um dos maiores e mais prestigiados guerreiros Sioux/Oglala/Lakota, foi o lendário Crazy Horse.
Graças à sua incrível liderança, táticas de guerra e a total lealdade de seus guerreiros, conseguiu derrotar o temido general Custer em 1876.
Ele foi o responsável por deter, mesmo que temporariamente, o exército americano, no seu intento de capturar e confinar em uma reserva, todo o povo Lakota.
Teríamos muito a dizer sobre a vida de Crazy Horse, mas quero destacar aqui que, apesar de todo esse reconhecimento como grande guerreiro, ele é lembrado por seu povo, especialmente por ter sido uma pessoa humilde.
Se alguém tivesse o direito de participar da “Waktoglaka”, esse certamente seria Crazy Horse. Mas na realidade, ele nunca participou de uma dessas cerimônias.
Ele próprio, nunca contou suas conquistas. Outros guerreiros faziam isso por ele.
Crazy Horse sempre foi uma pessoa modesta, tímida e, apesar de ter conquistado o direito de usar muitos dos adornos concedidos aos grandes guerreiros, ele sempre se vestiu modestamente e quando usava um adorno, esse não passava de uma única pena.
Apesar de toda sua fama e do seu reconhecimento, ele andava pelo acampamento de cabeça baixa, em humildade, quando teria todo o direito de andar com arrogância.
Crzy Horse nunca se ofereceu para liderar seu povo. Ele simplesmente foi escolhido por todas as suas qualidades, por seu caráter.
Existem muitas lendas e histórias entre os nativos que ilustram a importância de sermos humildes. Certamente voltarei a falar desse assunto.
Se procurássemos a humildade como uma virtude a ser desenvolvida, talvez não tivéssemos em nosso mundo atual, tantos desentendimentos, tantas disputas, tantos conflitos.
Se lembrarmos que todos perdem com a arrogância, talvez possamos encontrar uma forma de tansformarmos nossas vidas, nossos relacionamentos e quem sabe, um dia, nosso mundo…
Ahow

Lourdes Azevedo

Profecia Nativo-Americana

redskin-arcoíris
Exitem muitas profecias entre os povos nativo-americanos.
Uma delas é recorrente em diversas nações: Cree, Zuni, Cherokee, Lakota Sioux, Navajo-Hopi, entre outas.

“Haverá um tempo, quando a Terra estiver devastada e poluída, quando as florestas estiverem sendo destruídas, quando os pássaros caírem do céu, quando as águas estiverem escurecidas, os peixes envenenados, quando as árvores não mais existirem, a humanidade como conhecemos deixará de existir.
Haverá um tempo em que os ‘Guardiões da Lenda’, histórias, rituais, mitos e todos os costumes tribais serão necessários para restaurar a nossa saúde.
Esses guardiões serão chamados de os ‘Guerreiros do Arco-Iris…
Haverá um tempo de despertar quando todos os povos de todas as tribos formariam um ‘Novo Mundo’ de justiça, paz, liberdade e reconhecimento do Grande Espírito”. (Cree)

“No tempo do ‘Sétimo Fogo’, um novo tipo de pessoas surgirão. Eles refarão suas pegadas para encontrar a sabedoria que foi deixada de lado ha muito tempo atrás.
Seus passos os levarão aos anciãos, a quem pedirão orientação para guia-los nessa nova jornada.
Se esse novo povo permanecer firme e forte em sua busca, o tambor sagrado será ouvido novamente. Existirá um despertar das pessoas, e o fogo sagrado será aceso novamente”. (Hopi)

“Quandoa Terra estiver morrendo, uma nova tribo de todas as cores e credos se levantará. A tribo será chamada de “Guerreiros do Arco-Íris” e colocará sua fé em ações e não em palavras.” (Hopi)

“Os Gerreiros do Arco-Íris espalharão estas mensagens e ensinarão todas as pessoas da Terra ou Elohi. Eles ensinarão a viver o ‘Caminho do Grande Espírito’.
As tarefas destes guerreiros são grandes e muitas.
Nós somos parte da Terra e a Terra é parte de nós”. (Chefe Seatle)

“Existirão terríveis montanhas de ignorância para conquistar e esses guerreiros encontrarão preconceitos e ódio. Eles precisarão ser dedicados, inabaláveis em sua força e fortes de coração. Eles encontrarão corações e mentes voluntárias que os seguirão nesta estrada de retorno à Mãe Terra para a beleza e plenitude mais uma vez.
Quando mostramos respeito por outros seres viventes, eles respondem com respeito a nós”. (Arapaho)

“Quando o Tempo do Búfalo estiver para chegar, a terceira geração de crianças de olhos brancos deixará crescer os cabelos e começará a falar de Amor que trará a cura para todos os filhos da Terra. Estas crianças buscarão novas maneiras de compreender a si próprias e aos outros. Usarão penas, colares de contas e pintarão os rostos.
Buscarão os Anciãos de nossa raça vermelha para beber da fonte de sua Sabedoria. Estas crianças de olhos brancos servirão como sinal de que os nossos ancestrais estão retornando em corpos brancos por fora, mas vermelhos por dentro. Elas aprenderão a caminhar em equilíbrio na superfície da Mãe Terra e saberão levar novas idéias aos chefes brancos. Estas crianças também terão que passar por provas, como acontecia quando eram Ancestrais Vermelhos.”
(Sociedade Búfalo da Dimensão dos Sonhos).

Todas as profecias mencionam que quando a vida em nosso planeta estivesse ameaçada, um numero de pessoas cada vez maior surgiria, guiados e determinados a preservar a sabedoria dos povos nativos.
Seriam pessoas de todas as raças, de todos os credos, cores e costumes, que se empenhariam em resgatar os valores, os costumes esquecidos no tempo, mas que seriam fundamentais para recuperar a vida, reencontrar a harmonia e a paz através da consciência de que todas as raças constituem na verdade, uma só raça”.
Mitakuye Oyassin (somos todos parentes)

O Arco-Íris encarna a ideia de unidade de todas as cores.
Os Guerreiros do Arco-Íris encarnam a ideia de unidade de todas as raças.

Com certeza estamos vendo um número de pessoas cada vez maior, de coração ávido por um mundo melhor, trabalhando, cada uma à sua maneira, na esperança de aos poucos restabelecermos o amor e a sabedoria que estavam sendo perdidos no tempo.
Continuaremos sempre nessa incansável busca para podermos, de alguma forma, participar da confirmação dessa profecia.
Mais importante do que tudo, na minha opinião, será resgatarmos as qualidades de caráter desses povos.
Em breve estaremos falando um pouco sobre alguns dos valores que norteiam a vida desses sábios ancestrais.
Lourdes Azevedo

Dreamcatcher

Resultado de imagem para Dreamcatcher

Dreamcatcher – Filtro dos Sonhos

Na rica cultura dos povos indígenas certamente aprendemos uma série de lições práticas e eficientes para nossas vidas. O que a civilização moderna perdeu ao longo do tempo, assistimos presente na vida desses povos originais do nosso planeta.
O relacionamento desses nativos com a natureza, por exemplo, denota seu respeito e confiança na mesma, além da sincera compreensão de que toda vida é sagrada e contém em si a energia fundamental do criador.

São os símbolos da natureza que inspiram esses povos na criação de seus instrumentos sagrados.
O círculo que define o tambor, que delimita suas tendas, que orientas suas danças, por exemplo, molda também o Dreamcatcher (Apanhador de Sonhos) e todos são inspirados na natureza, nos movimentos circulares dos ventos, no movimento circular do sol e da lua, das estações do ano, dos ninhos dos pássaros, no movimento circular que a criatura humana percorre durante a vida, de uma infância à outra.

Observando mais de perto o Dreamcatcher (Apanhador de Sonhos ou Filtro dos Sonhos) vemos também a representação da teia de aranha e lembramos que o universo é uma enorme teia na qual toda a criação está conectada.

Todas as tribos norte-americanas confeccionam seus Dreamcatchers, mas o primeiro registro da utilização desse artefato sagrado está relacionado à tribo Ojibwe ou Chippewa que vivia na região dos grandes lagos americanos, entre o Canadá e os Estados Unidos.

A introdução desse objeto sagrado na vida desses nativos é contada por uma lenda.
Diz-se que um índio saiu em peregrinação ao topo de uma montanha, em busca de visão e que durante sua meditação encontrou uma aranha, a grande tecelã do universo, que lhe trouxe uma importante mensagem.
A aranha  prendeu as extremidades de um galho de cipó formando um círculo e teceu dentro dele, uma teia. Enquanto tecia sua teia ela lhe lembrou que tudo nessa vida está relacionado ao movimento circular. Lembrou também, que a vida é rodeada de energias boas e energias ruins e que cabe a cada um de nós separa-las e trabalhar com elas. Se trabalharmos com as energias boas, seremos guiados na direção da harmonia com todas as coisas, mas, em caso contrário, encontraremos a dor e o infortúnio.
Quando a aranha terminou de tecer sua teia, entregou ao índio o aro e lhe disse:
“No centro deste aro está a teia que representa o ciclo da vida. Use-a para ajudar o seu povo a alcançar seus objetivos, fazendo bom uso de suas ideias, sonhos e visões.”

Vale mencionar que os sonhos desempenham um papel fundamental na vida desses povos e aprender a decifrar as mensagens contidas neles, é a tarefa mais importante que têm durante sua passagem pela terra. Logo, o Dreamcatcher se tornou uma importante ferramenta para auxilia-los nesse propósito.
Pela teia circulam as energias positivas e negativas. As negativas ficam presas nas ramificações da teia enquanto que as positivas atravessam o furo central e penetram no ambiente em que o artefato estiver colocado. Com o nascer do sol, a luz dissolve as energias negativas que  estavam presas à teia. As penas que enfeitam essas peças representam o elemento Ar, a respiração e as contas ou cristais representam o elemento Terra.

Com a popularização desse artefato por volta dos anos 60, qualquer pessoa pode ter o seu Dreamcatcher pendurado na janela ou nas paredes de suas casas, locais de trabalho, em seus carros. E como aqueles confeccionados pelos povos nativos, proporcionam harmonia, garantem o fluxo de energia positiva no ambiente e descartam as influências negativas às quais somos submetidos diariamente em qualquer ocasião.
Convém, porém, dar preferência às peças confeccionadas artesanalmente, se possível por alguém que conheça e respeite a cultura indígena e cada um dos elementos usados na confecção do mesmo. Alguém que terá o cuidado de canalizar vibrações harmoniosas durante o feitio da peça.

Símbolo de confraternização entre os povos nativos, o Dreamcatcher é um importante aliado na limpeza e manutenção energética do espaço em que vivemos.

Lourdes Azevedo

Quer um presente?

Olá,

Hoje eu gostaria de oferecer a você, meu leitor, um pequeno presente.
Como você já deve saber, sou apaixonada pela cultura dos povos nativos das Américas e vivo pesquisando e estudando tudo o que encontro a esse respeito.
Recentemente fiz um pequeno apanhado sobre as cores na visão dos povos nativos norte-americanos.

Se você, assim como eu se interessa pelo assunto, provavelmente gostará de conferir esse meu trabalho.

Para isso, basta enviar um e-mail para mlmazevedo@gmail.com e colocar “e-book” no campo assunto.
Não será preciso escrever nada.
Assim que seu e-mail aparecer na minha caixa de mensagens, estarei enviando o e-book pra você. Olha a carinha dele aí embaixo!

Depois, se você quiser, me conto o que achou, ok?

Grande abraço
Lourdes

capa ebook cores