Sacrifício – Icicupi

nativeamericanthunder

Sacrifício
Icicupi (dar de si mesmo, oferecer-se)

Hoje vou falar sobre um assunto com o qual todos nós, de uma forma ou de outra, estamos familiarizados.
Durante nossa vida aqui na mãe Terra, nos deparamos com diversas situações que nos obrigam a fazer concessões, sacrifícios, a abrirmos mão de alguma coisa em prol de alguém, em prol de uma causa, uma circunstância.
Talvez trabalhemos num lugar que não nos deixa felizes, mas que garante o sustento de nossa família. Ou talvez precisemos deixar de realizar um desejo, como uma viagem de férias, em função de alguém que precisa dos nossos cuidados.
Pais em geral, deixam de lado suas vontades, para atender aos desejos ou necessidades de seus filhos.
Infinitas são as formas de sacrifício…
Você que está lendo esse texto agora, deve estar lembrando de algum sacrifício que precisou fazer ou ainda, que está fazendo, em função de uma pessoa, de uma situação, de uma contingência.
Existem duas formas de encararmos situações como essas.
Uma delas é revoltar-se, reclamar e maldizer o problema, o que só deixará o fardo ainda mais pesado, o desafio ainda maior.
Outra maneira é enfrentar o mesmo problema com serenidade, otimismo e positividade, o que transformará o fardo em algo bem mais leve e fácil de carregar.

A história que vou contar hoje, ilustra muito bem as consequências de um posicionamento equivocado face à adversidade.
Talvez você não saiba, mas para o povo Lakota, antigamente, não era absurdo acontecer de um homem ter duas esposas.
Não era uma situação comum, mas quando ocorria, o fato era aceito e respeitado pela comunidade.
Ter mais de uma esposa geralmente era consequência de uma situação específica. Por exemplo, um homem casado poderia tomar como esposa, a viúva de um grande amigo que se encontrava desamparada, com filhos para criar. Ou quando sua própria esposa expressava desejo que seu marido tomasse, além dela, uma de suas irmãs. Em situações como essas, era esperado que o homem assumisse a responsabilidade pelo sustento e cuidados de mais de uma companheira. Muitas vezes esse arranjo dava muito certo, mas muitas vezes acontecia exatamente o contrário…
Hà muito, muito tempo atrás, antes da chegada dos cavalos às planícies, num acampamento a leste das montanhas Black Hills, vivia uma mulher chamada Sina Luta ou Red Shawl (Xale Vermelho).
Ela havia se casado com um bom homem, bom provedor e de excelente reputação entre seu povo.
Apesar de estarem casados a bastante tempo, ainda não haviam conseguido ter um filho. Apenas depois de alguns anos Red Shawl conseguiu engravidar e deu à luz, um lindo menino.
A felicidade do casal era visível a todos.
Mas para surpresa e consternação de Red Shawl, seu marido lhe disse que traria uma segunda esposa para sua tenda.
Num acampamento próximo ao deles, um casal muito idoso criava uma de suas netas, desde que seus pais morreram numa nevasca.
O casal estava muito velho e queriam que a neta, Necklace, se casasse com um bom homem, antes de terminarem sua jornada aqui na terra.
Pediram a White Wing, marido de Red Shawl, que a tomasse em casamento e ele concordou.
Red Shawl, porém, nunca poderia imaginar que um dia precisaria compartilhar seu marido com outra mulher. Ela sabia que continuaria a ter uma posição privilegiada como primeira esposa, mas isso não conseguia conter seu ciúmes.
Quando White Wing partiu para buscar Necklace, Red Shawl juntou alguns poucos pertences, seu arco e flechas, alguns suprimentos, colocou seu filho em seu berço* e partiu da aldeia durante a noite, sem ser notada por ninguém.
Sua intenção era viajar para o leste até chegar a aldeia em que vivia uma de suas primas para ficar lá com ela. Red Shawl não estava disposta a dividir seu marido com outra mulher.
Muitos dias de caminhada aguardavam por Red Shawl. Mas ela era uma mulher forte, manuseava o arco e flechas com excelência, sabia caçar e certamente se sairia muito bem em sua jornada.
Mas Red Shawl não estava preparada para o que a esperava…
Depois de muita caminhada ela decidiu montar um pequeno acampamento para que ela e seu filho pudessem descansar por alguns dias.
Tudo estava indo muito bem, até que uma grande tempestade se formou, escurecendo o céu.
Tempestades de verão são consideradas pelos nativos, como a mais poderosa das criaturas que vivem nas planícies e os ventos são considerados a segunda.
Mais fortes do que o urso, mais perigosos do que o leopardo.
Red Shawl nunca havia enfrentado uma tempestade como aquela e agora estava sozinha, com seu filho para proteger.
Os ventos fortes levaram seu acampamento, seus pertences e toda sua provisão. Precisou de muita força e determinação para proteger seu filho. Pela primeira vez ela soube o que era estar sozinha…
A tempestade a açoitou e chacoalhou e a fez entender que a vida é uma jornada cheia de acontecimentos inesperados, como a chegada de uma segunda esposa para seu marido.
Red Shawl olhou para seu filho e percebeu que sua atitude o havia colocado naquela situação de perigo.
As águas da chuva começaram a subir rapidamente.
Desesperada Red Shawl procurava um abrigo, sem sucesso, até que avistou um enorme algodoeiro e amarrou o berço de seu filho na forquilha mais alta e mais forte que pôde alcançar.
Aos prantos ela gritou “Pai, leve-me se quiser, mas poupe meu filho!”
A correnteza a derrubou e a arrastou para longe.
Quando recobrou a consciência, seu corpo estava todo dolorido e gelado e não conseguia descobrir onde havia ido parar. Tentou ficar em pé e percebeu que havia torcido o tornozelo.
Na escuridão da noite ela viu estrelas no céu. A tempestade havia passado.
Mas Red Shawl só conseguia pensar em seu filho. O que teria acontecido a ele? Tentando manter a calma lembrou-se do algodoeiro. Talvez a tempestade não tivesse levado seu filho.
Ignorando a dor, ela se levantou determinada a encontrar aquela árvore e começou a caminhar a esmo.
Os pássaros começaram a acordar e ela notou um brilho pálido no horizonte. Estava amanhecendo e isso a ajudaria a encontrar seu filho.
Por volta do meio-dia ela chegou ao vale que havia sido inundado e reconheceu o enorme algodoeiro no qual deixara seu filho preso.
Mas ele não estava lá…
Desesperada ela começou a vasculhar a área em meio a gravetos e lama na esperança de encontrar seu filho entre os destroços deixados pela tempestade.
Já estava escurecendo e o desalento tomava conta de seu corpo.
Chorando, gritando e orando Red Shawl disse: “Vós, que viveis nas nuvens, tende piedade do meu filho. Ele é tão pequeno e indefeso. Leve seu espírito até o criador! E se tiver piedade, leve-me com ele!”
Mais uma vez ela caiu e não conseguia se mexer. Ela podia ver o rosto de seu bebê em sua mente e conseguia ouvir sua voz.
Tateando pelo chão, tocou em alguma coisa diferente. Nesse instante um grande relâmpago rasgou o céu e ela pode ver com o clarão, o berço de seu filho e o ouviu chorar. Ela agarrou o berço e o menino estava lá, como que por um milagre!
“Gratidão!” ela exclamou. “Obrigada a você que vive nas nuvens.”
Ela alimentou seu filho e os dois pegaram no sono agarrados um ao outro.
Na manhã seguinte, começaram sua jornada de volta pra casa.
No caminho, seu marido White Wing a encontrou. A família estava unida novamente.
White Wing conta para Red Shawl que havia decidido levar Necklace de volta para a casa de seus avós e disse: “Existem bons homens com quem ela poderá se casar.”
“Não!”, respondeu Red Shawl, “Isso traria vergonha para ela. Eu a receberei em nossa tenda, porque eu sempre me sentirei honrada por ser sua primeira esposa”.
E Red Shawl contou a seu marido sobre a tempestade, a inundação e como seu filho lhe foi devolvido pelo trovão.
Red Shawl nunca questionou como o trovão devolvera seu filho, mas esse mistério sempre lhe trouxe muita alegria e ela encarou o ocorrido como um presente que precisava ser retribuído.
Necklace foi muito bem recebida em sua tenda e com o tempo tornaram-se como irmãs.
O filho de Red Shawl cresceu alto e forte, muito devotado à sua mãe.
Quando completou 15 anos, seu pai White Wing, lhe concedeu o nome que sua mãe havia lhe dado e pelo resto de sua vida ficou conhecido como Wakinyan Aglipi, ‘Devolvido pelo trovão’.
Red shawl viveu muitos anos e foi tida como uma boa e  sábia mulher. Toda vez que trovões eram ouvidos e raios rasgavam o céu, ela saia de sua tenda e cantava uma canção de louvor para honrar aqueles que viviam nas nuvens.

Até mesmo uma atitude tola, pode levar alguém à sabedoria.

*Cradleboard/Berço: Forma tradicional usada pelos povos nativos para carregar seus bebês. Vide fotos ilustrativas a seguir.

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